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O baile todo na contemporânea música do mineiro VHOOR

O baile todo na contemporânea música do mineiro VHOOR

Victor Hugo Oliveira Rodrigues atende a ligação depois de dois ou três bipes. Enquanto me apresento, contando uma velha história que possa quebrar o gelo de uma entrevista por telefone, escuto do outro lado da linha uma intensa movimentação com bastante ruído. Não preciso estar perto para sentir a inquietude deste jovem artista de 22 anos, morador de Venda Nova, “mais especificadamente Pólo Pós Venda Nova, último bairro da cidade na região Norte (de Belo Horizonte)”, que há cinco anos produz músicas em casa, há um ano gravou uma colaboração com Sango – célebre produtor americano – e que há poucas semanas lançou um novo álbum (Baile & Vibes) e foi destaque em uma lista de 10 músicas brasileiras do aclamado DJ e radialista francês Gilles Peterson, no jornal britânico The Guardian.

Não consigo começar essa entrevista sem antes celebrar uma previsão feita pelo pesquisador brasileiro Ronaldo Lemos, lá em 2011. Fazendo um comentário do recém lançado livro do crítico musical inglês Simon Reynolds, “Retromania”, em que o autor defendia que a música pop estava viciada no passado, Ronaldo apontou um cenário que hoje parece mais óbvio do que nunca. O artigo intitulado de “Futuro do pop está nas periferias”, contradiz Simon: “A periferia pop global é uma explosão de música que não tem nada a ver com o passado. Os “futuristas” estão em toda parte: são os cumbieros na Argentina, os funkeiros ou tecnobregas aqui, o kuduro em Angola, ou o Shanghaan eletro na África do Sul. É onde a música hoje explode de vitalidade e de descompromisso com o que veio antes”.

À essa altura, lá em 2011, a minha vida de jornalista se resumia a terminar a faculdade, escrever reportagens para a extinta Revista Ragga e discotecar duas ou três vezes por semana em bares e boates de Belo Horizonte. Eu e alguns amigos nos sentíamos parte de um movimento nacional e global que buscava superar o início do fim da “Era Indie” (Adeus, Strokes!) e, portanto, nos dedicávamos à ouvir, pesquisar e discotecar apenas as “músicas do futuro”, quase sempre vindas das periferias da Inglaterra, Jamaica ou África do Sul. Passávamos horas lendo artigos e entrevistas com Diplo e os seus artistas/discípulos do selo Mad Decent, todos com uma grande habilidade de apresentar um novo gênero musical para o mundo toda semana. Um mês fora da internet e você estava simplesmente fora do jogo.

Peço perdão por estas pequenas regressões, mas é preciso exaltar o quão encantadores e evidentes são os ciclos, os vícios e também os precipícios da música contemporânea. E também peço licença para contrapor Ronaldo Lemos, já que, apesar de ser sim a luz do futuro, a “periferia pop global” tratou logo de assimilar também a música do passado para a construção da música do presente. Vide a flauta de… Sabastian Bach em Bum Bum Tam Tam, de fundamental importância na construção de uma das músicas mais ouvidas no Brasil nos últimos dez anos. E vide também o trabalho de Victor Hugo Oliveira Rodrigues, que tem sido aclamado e prestigiado justamente por uma música em certo equilíbrio entre passado, presente e futuro.

Talvez você ainda não tenha ouvido falar de Victor Hugo Oliveira Rodrigues, mas é provável que já tenha ouvido – ou vai ouvir – VHOOR. Respondendo sempre em nome de um coletivo, Victor e seu projeto musical representam também o que há de mais fresco, pulsante e estimulante na música eletrônica periférica brasileira hoje. Tratando a música e os beats sempre como “ferramentas” (sim, as tools!), Victor apresenta o seu trabalho como um artista-operário. Afinal, ele integra um movimento que está de fato construindo um novo capítulo na música popular brasileira.

Acho que é legal começar do começo e saber o momento em que Victor virou VHOOR. Imagino que esteja respondendo bastante sobre isso recentemente, mas acho que é importante contar essa história.

Venho de uma família de músicos, moro em Venda Nova, mais especificadamente Pólo Pós Venda Nova, na fronteira de Santa Luzia com Vespasiano, o último bairro da cidade na região Norte. Passei minha infância toda na Avenida Vilarinho. E venho de uma família de músicos. Meu pai sempre tocou em igrejas, casamentos, bar… Ele tinha uma banda de rock nos anos 90. E a minha mãe cantava com ele nos bares pela cidade. 

Muitas coisas que eles conquistaram, mobília da casa e essas coisas, foi conquistado pela música. Então a minha casa sempre foi um ambiente muito musical, sempre teve violão, instrumentos pra caramba. A gente não é uma família muito pobre, mas não temos também aquele luxo de ter coisas.

Meu pai ensaiava com a banda aqui, fazia várias coisas em casa. E quando fui crescendo, na minha adolescência, por influência quis aprender a tocar os instrumentos. Aí pedi e ele acabou me ensinando o violão primeiro.

O VHOOR era, na verdade, uma vontade que eu tinha de gravar algumas coisas que estava aprendendo. Eram algumas coisas que eu tocava, achava legal e queria postar em algum lugar para poder ouvir. Então colocava no Soundcloud. VHOOR é Victor Hugo Oliveira Rodrigues, são as minhas iniciais. Na época era um O só. E foi passando, fui gravando algumas coisas…

Violão? Só violão?

Violão! Uns instrumentais nada a ver no violão. E trinta segundos, tipo. Só gravava porque achava legal e deixava lá no privado para poder ouvir. Aí um amigo me indicou: “Mano, por que você não aprende a produzir música, já que você gosta tanto de gravar suas coisas e ouvir o que você está fazendo? Tem um software bacana, chama FL Studio, por que você não pega para aprender?”

Baixei e me encantei com o tempo. Comecei a fuçar, fuçar, fuçar e é um bagulho muito louco, porque não manjo nada de inglês. Na época que tava começando a aprender, não tinha nada na internet sobre produção de música nessa pegada que gosto mais hoje. Nada relacionava a música eletrônica e nada relacionava a produção de beat. Era um ambiente em que os poucos conteúdos que tinham disponíveis, eram coisas sobre música instrumental de banda e em inglês.

Assisti tudo que tinha disponível no YouTube, peguei, me debrucei pra caramba pra poder pegar essas coisas, conteúdo em inglês, eu via o que o cara estava fazendo. Era muito difícil achar um conteúdo específico e em português.

Aí foi acontecendo. Achei alguns fóruns na internet, era a época em que o Trap estava começando, isso que a gente chama de Festival Trap, o Tropkillaz fazendo sucesso… Tinha o Diplo e toda essa pegada que tava começando, essa pegada que eles chamam de EDM Trap. Acabei me encontrando nisso, até porque tinha muito mais conteúdo sobre correndo na época.

Os fóruns foram muito importantes para poder trocar ideia, trocar informações sobre o que estava acontecendo, aprender muita coisa com a galera que fazia. Na época tinha um fórum muito famoso no Facebook que chamava Trap Club, ele foi muito importante para a divulgação e desenvolvimento do gênero que a gente estava começando a fazer.

Isso foi em que ano, Victor?

Isso é 2016, 2017. Tem cinco anos que produzo. Tava olhando o perfil do Soundcloud, esse do VHOR de um O só, o primeiro dia que eu baixei o programa e fiz alguma coisa e postei lá tem cinco anos. E foi muito louco porque quando eu me encontrei neste movimento, achava esse Festival Trap, esse bass mais pesadão, muito barulhento. Achava uma pegada que não me fazia muito sentido, essa música muito pesada. E tava começando, engatinhando, com algumas pessoas dentro do fórum, essa parada de um som mais focado no beat. E com algumas pegadas de influência de música brasileira e influência de baile funk, que eu sempre tive a vida toda.

Eu morava de frente para a Quadra do Vilarinho. Minha mãe trabalhava em um bar, que era de frente para a Quadra. Eu respirava esse ambiente. Sempre estudei em escola estadual, então era um bagulho que sempre esteve presente na minha vida, querendo ou não. Já tive fases em que eu era aquele famoso rockeiro que não gostava de funk, mas era um bagulho que sempre esteve presente na minha vida. Com o tempo, amadurecendo, fui entendendo o quanto isso era importante na minha formação musical também.

Não adianta, o funk corre no sangue, né? Achei curiosa essa sua questão com o som mais pesadão, barulhento. O funk vem forte neste movimento de aceleração desde 2016, subindo os BPM, 150, 175. Como que é sua relação com essa progressão?

É muito louco esse bagulho do BPM, porque quando comecei a produzir esse tipo de som, que hoje a gente chama de Baile, é um certo apelido que os gringos deram – é Baile no próprio Soundcloud – acho que eles não entenderam o conceito do Baile Funk. Funk para eles é um som bem Soul, James Brown. Então eles chamam só de Baile. E então ficou conhecido mais como Baile ou Chill Baile aqui no Brasil.

Quando a gente começou, tinha muita referência de Trap e dos Future Beats que estavam começando na época, que era um bagulho mais Soulful, mais R&B. Então a nossa ferramenta era um bagulho, tipo assim, Trap misturado com Funk. A principal ferramenta que a gente tinha para fazer esses Beats era o Trap. Com o tempo e com a gente trabalhando, todo mundo do gênero e eu, principalmente, comecei a entender que talvez o caminho não fosse esse. Talvez seja o Funk utilizando do Trap como ferramenta. Parece só uma troca linguística, mas na hora de produzir faz toda a diferença.

E esse bagulho do BPM é uma coisa que realmente foi afetada nisso. Quando comecei a produzir, tava no final do Funk Ostentação, tinha muito conteúdo em 130 BPM. Então a gente fazia as músicas todas em 130 BPM. Todas as referências que a gente tinha, eram de um Trap mais lento, em 130 BPM. Acho que até por isso que era um som mais R&B, mais Soulful. Porque o 130 BPM é bem lento.

Com o tempo, o funk do Rio de Janeiro, principalmente, foi acelerando. A gente acompanhou essa aceleração do funk. Lembro que quando isso começou a acontecer, a gente até ficou meio assustado, porque como a nossa ferramenta de trabalho é o funk… Todas as nossas ferramentas, as batidas, os beats de Funk, as acapelas do Funk, os cortes, começaram a aumentar o BPM. Lembro que no começo era muito estranho fazer um Chill Baile em 150 BPM. Depois foi se tornando mais normal. Tentei acompanhar isso. 

O meu primeiro álbum em 150 BPM foi o Acima, do ano passado (2019), que eu juntei com o Sango. Era o maior expoente do gênero, né? E achei muito louco isso porque eu já tinha feito alguns beats em 150 BPM, acho que fui um dos primeiros a trazer o Trap com o Funk em um BPM mais rápido. Acho que o Sango percebeu isso. Até por isso o nome do álbum. Acima de toda negatividade, mas é também acima de um BPM que a gente estava acostumado.

E agora, com o Baile & Vibes, as músicas estão em 150 BPM, mas ele tem sido construído neste elo todo. O funk do Rio de Janeiro foi aumentando aos pouquinhos. Então o Baile & Vibes já tem músicas em 155, 160…

Nesta quarentena eu venho trabalhando em um projeto novo, que tem muita música pronta. E tenho percebido que todo o conteúdo, toda ferramenta que tenho disponível para trabalhar nessa pegada que eu trampo hoje, do Trap com o Funk, já está em 170bpm. Então as referências mudam. Hoje por exemplo tenho escutado muita coisa tipo Jungle, Drum and Bass, para poder usar dessas ferramentas de música eletrônica de BPM mais rápido no som que eu faço. 

Conta um pouco desta sua relação com o Sango. Foi a partir do Acima que você ganhou essa projeção internacional?

Sim, foi nesse momento que o meu trampo começou a ser mais reconhecido. É muito foda essa relação com o Sango, porque há quatro anos, quando tava começando a produzir, era uma referência do que eu queria fazer. Lembro de ouvir as músicas dele e pensando o quão era incrível, um dia eu quero chegar nesse nível.

Quando recebi o convite para fazer o Acima, foi como se eu tivesse zerado o game assim. Porque além dele ser referência no gênero que eu faço, o Sango é também muito reconhecido em outros estilos de beat. Ele é referência de beat global. Não é só uma parada que mistura Trap com Funk e é um americano. Lá fora ele é conhecido por essa experimentação de beat toda.

Lá fora a galera não tem muito esse conceito do que é o Baile Funk. Lá ele é conhecido como um beatmaker que usa de elementos percussivos. Além do funk, ele usa gêneros exóticos, gêneros tradicionais da música latina, da música africana…  Sempre valorizei muito essa pegada da música experimental com esse fator cultural bem forte, bem enraizado.

Não podemos deixar o som como se fosse muito limpo. O ruído, a forma como é produzido, o jeito como é feito o Baile Funk, todas as distorções que ele tem, isso tanto no funk como nos outros ritmos da música eletrônica periférica, eles têm que ser respeitados.

Porque acho que, com o que a gente trabalha, o mais importante é manter a estética daquilo que estamos produzindo. Não podemos deixar o som como se fosse muito limpo. O ruído, a forma como é produzido, o jeito como é feito o Baile Funk, todas as distorções que ele tem, isso tanto no funk como nos outros ritmos da música eletrônica periférica, eles têm que ser respeitados.

Acho que uma limpeza desses ruídos e a forma como se é produzido é um bagulho quase… É como se higienizasse a forma como a galera da periferia produz, dando uma limpeza muito severa. E acho que esse não é o caminho. Acho que respeitando estas ferramentas e a maneira como é feito mesmo, é um bagulho bem interessante. 

A minha relação com o Sango foi essa, tipo, mudou tudo. Meu Spotify bombou, recebi vários convites para fazer várias coisas, além de aprender muito com ele no desenvolvimento do projeto Acima. Como ele produzia as coisas, as dicas de produção. Com o Acima ele me mostrou o caminho a seguir. E a gente construiu um caminho que hoje eu sigo. O Baile & Vibes, todos os projetos que vieram depois, tiveram como base o que a gente fez no Acima.

Uma coisa que me chamou atenção nos seus últimos lançamentos (Baile & Beats) e (Baile & Vibes), foi ter uma referência ao Brasil ou a Belo Horizonte nas capas. Deixou evidente o seu apreço pela música brasileira. Queria que você contasse sobre isso, o quanto que o Brasil é a sua identidade hoje, mesmo sendo um artista internacional.

Sim, acho que isso é muito importante, porque a música brasileira é o que eu consumo no dia a dia. O que eu faço não é nada mais, nada menos, que música brasileira. Uso de uma ferramenta estrangeira, que são os gêneros estrangeiros de música eletrônica, mas com a nossa música. Tanto a música brasileira antiga com a música brasileira mais nova. 

Tenho um EP, o Brazilian Boogie, são as músicas disco dos anos 70 e 80 que foram feitas aqui no Brasil, que são bem valorizadas lá fora. Mas também gosto de trabalhar com a música brasileira contemporânea, que a gente produz aqui.

Entendo a música brasileira desde o Funk até a Bossa Nova como um gênero único, como referência única. O que muda muitas vezes na cabeça da pessoa é o preconceito com onde é produzido e por quem é produzido, e isso é muito errado. A música brasileira é única, a referência de música brasileira é única para todo mundo, só muda o tempo. Acho importante valorizar isso. Valorizo muito de onde eu venho e a ferramenta que tenho para produzir. 

Talvez o som mais alternativo sendo criado no Brasil hoje, periférico, seja o Funk de BH.

Valorizo muito o funk aqui da cidade, que é único também. O funk de BH é muito referência nas minhas músicas. Por mais que o resultado seja diferente, cada vez mais tenho tentado aproximar o Funk da minha cidade com as minhas produções. Tanto nas atmosferas mais darks, que tem no funk daqui, que muita gente da cidade não conhece e pega referência de fora. 

Talvez o som mais alternativo sendo criado no Brasil hoje, periférico, seja o Funk de BH. E a galera não tem muita noção disso. A música brasileira, de uma forma geral, é total importante no meu som, talvez a coisa mais importante que tento valorizar. 

Tem um lance curioso nisso, que olhando pelos dados de ouvintes no seu Spotify, indica que as cidades onde mais se escuta VHOOR são São Paulo, Rio e aí já passa para Londres, Los Angeles e Paris. Talvez você tenha um alcance internacional maior do que local ou até mesmo nacional. Você consegue atribuir alguma explicação pra isso? 

Acho que a ferramenta que eu uso, o Trap, quando comecei a fazer, ele não era tão difundido aqui no Brasil como é hoje. Hoje os rappers usam bastante a sonoridade para poder escrever, enquanto a gente, há cinco anos atrás, isso praticamente não existia. E também o fato do Soundcloud ter possibilitado que o meu som chegasse primeiro lá fora do que aqui.

O Soundcloud não era uma ferramenta muito utilizada no Brasil. Hoje em dia ele é usado muito para o funk. Mas antes ele não tinha muito conteúdo em música brasileira forte. Era um conteúdo só de beatmakers. A galera lá fora valorizava antes. E também o fato da galera de fora enxergar o que eu faço sem uma carga de preconceito. Isso é um ponto muito importante também.

Acho que o fato de ser Funk, ou música brasileira, muitas vezes aqui no Brasil tem uma parcela, principalmente uma parcela de elite da população, que não vê um valor no que eu faço por utilizar essas ferramentas. E lá fora essa carga de preconceito não existe. A galera consegue enxergar como uma manifestação artística de um lugar. E eles valorizam muito isso, essa manifestação artística. 

No meu Soundcloud, por um bom tempo a França e a Inglaterra foram os meus maiores consumidores, na frente do Brasil. E hoje, se não me engano, os Estados Unidos está no primeiro lugar. Nestes últimos lançamentos o Brasil passou, mas no geral os Estados Unidos é o primeiro lugar. 

Acho isso muito louco, todo dia chega um e-mail de algum lugar diferente. Hoje eu tava dando uma entrevista para um portal de Berlim. Eu achei fantástico, Alemanha! É muito louco, tipo assim, eu moro em Venda Nova, sabe? Saiu hoje também uma reportagem na França. Então é muito louco ver onde o meu som tem chegado, as fronteiras que o VHOOR tem me ajudo a passar na minha vida.

Hoje eu tava dando uma entrevista para um portal de Berlim. Eu achei fantástico, Alemanha! É muito louco, tipo assim, eu moro em Venda Nova, sabe?

Só saí de BH, fui conhecer praia, andar de avião, por causa do VHOOR. Não conhecia praia. A gente que mora em Minas Gerais, a gente sabe como é difícil pra galera daqui, principalmente de uma região mais periférica da cidade, não é todo mundo que conhece praia. Minha mãe acho que ela foi na praia uma vez na vida e foi na lua de mel do casamento dela. E eu só tive oportunidade de conhecer praia por causa do VHOOR. Ano passado fui quatro vezes para o Rio de Janeiro, nunca tinha andado de avião, sabe? Então são coisas muito loucas, de onde meu som tem chegado e as possibilidades que atingi por causa dele. 

Massa demais, Vitor! E como que você está lidando com essa ascensão do seu trabalho nestes tempos de pandemia? O que mudou para você e o no seu trabalho?

A pandemia foi ruim para todo mundo. O fato de ter fechado as casas de show e a gente não poder fazer mais shows e performances, acho que barrou muita coisa, principalmente do contato mais pessoal com o público. Mas eu vejo no meu caso que a pandemia, em certos aspectos, foi positiva. 

Com essa falta de perfomances ao vivo e essa limitação, acho que a imprensa e o público em geral começaram a dar mais valor para os produtores de música virtual, como eu. O meu trabalho sempre foi desenvolvido e disseminado de uma forma mais virtual. Então acho que as pessoas começaram a olhar mais para as pessoas que faziam música na cidade que não necessariamente precisaria de ter contato físico. Que já tinham uma certa estabilidade no mundo virtual. Achei isso interessante.

E você vê essas festas virtuais como uma adaptação possível? 

Acho que as lives tem sido eficazes. Tem uma saturação no formato que estão rolando hoje, mas acho que as festas digitais da forma como são feitas são bem legais.

 A festa do Baile Room que a gente fez em parceria com a Budweiser foi incrível. Foi com o aplicativo Zoom e todo mundo que estava lá, teoricamente, teria que ficar com a webcam ligada.  Nem todo mundo estava, mas a intenção era estar. E foi incrível porque, no pico da festa, tinham 300 pessoas, umas 200 com a webcam ligada, dançando, interagindo.

Era uma coisa meio Black Mirror mesmo, um bagulho fora do comum, você ver todo mundo dançando em sua sala, em seu ambiente, interagindo em um lugar que não era a festa, não era um ambiente físico. Isso foi uma coisa muito louca, um baque. E também possibilitou pessoas de fora, tanto do estado como do país, a assistirem a nossa festa também. Foi uma experiência nova e uma maneira nova de se fazer festas. Bem impactante para todo mundo que tava fazendo e que assistiu. Foi um trampo absurdo, mas muito interessante.

E como que você tem pensado em se adaptar financeiramente para esta nova realidade? A venda de singles digitais funciona?

Está difícil para todo mundo. Saiu algumas matérias e eu tenho sentido isso nos meus próprios números também: o streaming tem caído bastante. Porque, pelo que eu estava vendo as pesquisas e as matérias falando, com as pessoas em casa, elas dão mais preferência para os conteúdos de vídeo, do que para os conteúdos de áudio. A galera escuta mais música quando está em tempo ocioso, como por exemplo nos transportes públicos, na academia… E esse é um momento muito importante para gerar número pra gente. 

Mas as plataformas têm tentado amenizar isso com várias iniciativas. O Soundcloud disponibilizou vários links de doação pra galera que produz. São links que redirecionam para fazer doações ou compra de algum álbum. Eu redirecionei para o meu BandCamp, para a galera que está interessada em me ajudar neste momento difícil para os artistas, me ajudarem, comprarem um álbum. E está sendo legal porque tem várias pessoas ajudando,

No dia 1 de Maio o BandCamp tirou as taxas e isso movimentou muito para os artistas, vendeu muita coisa. Com a alta do dólar, tá dando pra gente se virar, principalmente os artistas nacionais. Então a gente tá matando um leão por dia, mas aos pouquinhos tá indo.

Agradeço muito pela conversa Victor. Mais uma coisa só, antes de encerrar: durante toda a conversa você fala muito “a gente”. Este “a gente” seria Victor e VHOOR?

Não, hahaha. É o VHOOR e todas as pessoas que também trabalham com a música que eu faço aqui no Brasil. Porque acho importante citar o meu projeto, mas também citar as outras pessoas. Acho que é muito legal essa visibilidade que estou tendo, então também quero agregar as outras pessoas que fazem o que eu faço, porque é uma música nova e a gente tem pouco espaço para poder mostrar. E não necessariamente os que usam só a música brasileira.

No Brasil a gente tem beatmakers que são praticamente criadores de gêneros de beat lá fora, que aqui a gente não tem essa noção. Por exemplo, toda essa onda que está surgindo agora de alguns beats mais lo-fi, principalmente voltadas para o Trap, tem pessoas que começaram, que são pioneiras neste gênero, que como é muito novo, passou despercebido.

Então é importante falar que tem uma beat scene consistente no Brasil, que é muito valorizada lá fora e que muitos gringos escolhem trabalhar com a música brasileira pela beat scene que a gente tem aqui. Tanto eu trabalhando com o VHOOR, como os meninos do DKVPZ, de Campinas, São Paulo, que tem um trabalho incrível, como o Paulo de Recife, que também tem um trampo incrível, tem várias pessoas, JLZ, de Brasília. Então é bem mais amplo também. E é importante… Acho que, nessa pandemia, é o momento da gente pontuar que isso existe no Brasil.

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