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Pegando carona no Pau de Arara de Jotabê Medeiros

Pegando carona no Pau de Arara de Jotabê Medeiros

Estamos em 1965 e aqui vem descendo pela BR-412 dois caminhões de sal, ambos com as cargas pela metade, não só pelo risco de quebrarem no caminho, mas porque é preciso espaço para acomodar o pequeno Jotabê e as outras onze crianças e adolescentes que também sacolejam nas boleias empoeiradas das máquinas forçosas em vencer o vento quente e o tempo seco da fronteira entre a Paraíba e Pernambuco. Pelo reflexo do vidro empoeirado da terra da rua é possível ver os últimos sinais da pequena Sumé, a violentamente doce Sumé, que agora vai ondulando trôpega no vidro, na poeira e no retrovisor, arrancando um suspiro de alguém, mas que ainda não dá pra saber se é de alívio ou se vai ser de saudade.

Com apenas três anos de idade, esta imagem ficou guardada em algum lugar da memória deste Jotabê que atende hoje o telefone em Ibiúna, “terra preta” em Tupi, onde o jornalista e crítico musical veio construindo um refúgio há pelo menos vinte cinco anos, quando encontrou essa “quiçaça”, pedaço de terra que “era muito barata, mas que ninguém queria”. Foi entre Ibiúna e a capital paulista que Jotabê escreveu duas célebres biografias nos últimos anos, a do “filósofo dos jovens” Belchior e a do “rebelde” Raul Seixas, além da autobiografia familiar O Último Pau de Arara, que narra a saga de sua família nordestina rumo ao Norte do Paraná. O livro, editado pelo coletivo Grafatório com ilustrações do artista mineiro Luís Matuto, está em campanha de financiamento coletivo aberta pelo site Catarse até o dia 20 de Julho

“Existe uma tradição literária no mundo inteiro, que examina a própria, digamos assim, constituição ética, examinando o passado da família, sabe? Eu nunca tinha me tocado que tinha essa história por contar. Quando a gente está vivendo a vida, ela vai seguindo e não prestamos atenção em algumas coisas”, conta Jotabê, do lado de lá, de onde dá para se ouvir passarinhos cantando e latidos de um cachorro que vê alguém passar. 

“Mas há dois anos, quando meu pai completou seu centenário, eu me dei conta que os filhos todos se tornaram uma parte do que ele é. Me ocorreu examinar o que ele é. Porque, na verdade, é um cara misterioso. Um cara cujo passado a gente não conhece direito”. O nome dele é João Francisco Medeiros, agora com 102 anos, vivo, com uma história que guarda 20 filhos, 45 netos, 23 bisnetos e dois trinetos. Jotabê foi o 11° filho, o primeiro homem que vingou (dois outros morreram ainda bebês).

Jotabê Medeiros em fotografia de Renato Parada

Foram nove dias e nove noites no balanço dos caminhões que trouxeram a família da Paraíba para Cianorte, no Paraná, onde os Medeiros se assentaram. “Essa história tem um link com aquelas histórias dos retirantes nordestinos, ao mesmo tempo que ela aponta para a absorção cultural. A gente virou um elemento novo na paisagem. Com muita coisa da tradição, muita coisa dos arcaísmos do meu pai, da nossa história e com um certo cosmopolitismo também”, conta. Enquanto Jotabê se transferiu mais tarde para Curitiba, depois Londrina e São Paulo, outros Medeiros seriam “vistos alistando na Legião Estrangeira, ensinando português na cidade japonesa onde viveu Bashô, dividindo apartamento em um prédio invadido em Madri, tomando vinho com críticos de jazz no Carnegie Hall”.

A história de três nordestinos

O Último Pau de Arara é a terceira biografia escrita por Jotabê. O jornalista revela as particularidades e semelhanças com as duas primeiras: “Os dois biografados que trabalhei são mitos da cultura brasileira. São caras cujas obras têm uma ressonância fodida no imaginário do Brasil, dos jovens… Belchior é quase um filósofo para os mais jovens, é uma linguagem que compreende a angústia da juventude, um cara que foi muito visionário nisso. E o Raul é o rebelde, ele instaura a rebeldia instantânea. Onde tem o Raul você tem uma rebelião. Esses dois caras tinham isso”.

Já a história do seu pai, “é a minha história, a história da minha família, é a história de uma pessoa desconhecida. Mas, ao mesmo tempo, me dei conta que era preciso aplicar o mesmo rigor no exame dos personagens. Porque, embora o meu pai não tenha uma obra artística, ele tem as pegadas da história social e cultural dele. Isso que conecta a minha história com a história brasileira. Assim como no caso do Raul e do Belchior”.

“O que acontece é que, pra mim que sou crítico de música desde os anos 1980, os discos servem como guia. Então a obra do cara está registrada em discos. O Raul Seixas, por exemplo, os discos dele são todos em vinil, então assim que consegui adquirir toda a obra, isso vira um guia. No caso do meu pai, não tinha guia nenhum. O único guia era o meu próprio afeto pelos acontecimentos.”

O retirante nordestino encontra o retirante mineiro

Inspiradas em muitas obras da literatura popular brasileira que tiveram as primeiras edições ilustradas por artistas e gravadores, Jotabê convidou o artista mineiro Luís Matuto para criar uma atmosfera visual para O Último Pau de Arara. A indicação veio da editora Grafatório, de Londrina, famosa por um trabalho cuidadoso na produção de trabalhos gráficos analógicos.

 “Na hora em que eu vi, falei: ‘é ele, é o cara’. Tem tudo a ver. Apesar de ele ter outra origem, estar mais ligado às montanhas de Minas, ele conhece a natureza. O trabalho dele tem uma mistura de violência e ternura, para citar o Mário Faustino, que eu falei, ‘cara, é mais ou menos isso, essa é a definição da minha família’”.

Gravuras de Luís Matuto, artista convidado para ilustrar O Último Pau de Arara

Luís Matuto, que é natural da cidade mineira Alfenas, mas mora em Belo Horizonte, diz que recebeu o convite com muita alegria. “Eu já queria trabalhar com a Grafatório há um tempo, ainda mais com um texto barra pesada desse. O trabalho do Jotabê me toca em uma questão de proximidade com a história da minha família. Meus avós também migraram do sertão pernambucano para Minas Gerais, tiveram 15 filhos – só cinco a menos que a do Jotabê”, conta, sorrindo pela ligação.

Sobre as gravuras que estarão no livro, Matuto explica que as matrizes de impressão serão desenvolvidas a partir da Peroba, árvore marcante no Paraná e da Algaroba, árvore invasora da Paraíba. “A gente vai fazer na contra fibra da madeira, (uma técnica chamada de) xilogravura de topo. O mais legal é que as impressões vão ser diretas na página dos livros. Então é a matriz em contato direto com o papel, não vai ser uma reprodução em offset. A demora da Grafatório em produzir os livros é equivalente ao capricho”.

Violência e ternura

O Último Pau de Arara está na fase final da campanha de financiamento coletivo e será publicado “em uma edição artesanal, com cópias limitadas e numeradas (apenas mil exemplares), acabamentos feitos à mão, impressões tipográficas e ilustrações originais em xilogravura, impressas uma a uma”.

Imagem da campanha aberta no Catarse.

Jotabê destaca a importância da publicação deste trabalho, para além do valor emocional: “A gente tem se dirigido muito para a cultura estrangeira. Não estou falando isso de forma nacionalista, mas quase todos os personagens que são grandiosos, a gente costuma ver nos outros, não nos da gente. E acho que teve um gap no tratamento do personagem do nordeste brasileiro. Imagino que deve ter sido por causa da globalização. O personagem humano, brasileiro, desapareceu um pouco da literatura. Talvez ela tenha ficado mais urbana, mais frenética, e talvez eu esteja fazendo um percurso de volta a uma literatura mais íntima, mais ligada a um carinho pela própria identidade”.

E antes de desligarmos a ligação, com os pés mergulhados na terra que encontrou e na lembrança da terra que ficou para trás, o escritor destaca: “Nós estamos vivendo um momento de grande negação dos valores brasileiros, de grande marginalização de certas características brasileiras. Essa história talvez recupere para algumas pessoas a memória do que a gente é e o que a gente se tornou”.

Para fazer parte da campanha de financiamento coletivo do Último Pau de Arara é só acessar catarse.me/oultimopaudearara. Até dia 20 de Julho.

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