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Site independente pressiona por divulgação de dados do novo coronavírus em Minas

Site independente pressiona por divulgação de dados do novo coronavírus em Minas

Durante mais de 100 dias seguidos, desde o primeiro caso de Covid-19 confirmado em Minas Gerais, em 8 de março, o jornalista Cristiano Martins tem trabalhado em um banco de dados e divulgado publicamente informações sobre a pandemia do novo coronavírus em Minas Gerais que pressionaram o governo mineiro a ser mais transparente. O trabalho voluntário e independente que começou sendo publicado em parceria no portal BHAZ, ganhou repercussão em um site próprio, em parceria com o jornalista Ígor Passarini, o coronavirus-mg.com.br, e em abril apontou em primeira mão que o estado tinha os piores índices de testagem no país.

Posteriormente, o governo mudou a forma de divulgação dos números de testes, que não são mais atualizados diariamente. Por outro lado, o estado melhorou o nível de transparência de dados relativos à Covid, chegou a ocupar a 19ª posição entre os 27 entes da federação, e agora está em segundo, empatado com Goiás, Rondônia e Rio Grande do Sul, segundo o projeto Open Knowledge Brasil. Desde o começo de abril, o trabalho de Cristiano e Ígor já foi repercutido por veículos como TV Globo, TV Record, TV Horizonte e jornais como O Tempo, Estado de Minas, Super e Hoje em Dia.

Mestre em Jornalismo de Investigação, Dados e Visualização pela Universidad Rey Juan Carlos, na Espanha, Cristiano conta que retornou ao Brasil no final de janeiro e teve a ideia de criar um banco de dados sobre a Covid-19 enquanto lia notícias sobre a pandemia na Europa. Ele ressalta o caráter democrático da iniciativa, que defende a transparência pública como forma de informar os cidadãos e incentivar o controle público das instituições e garante que vai se esforçar para manter o site atualizado e com conteúdo aberto até o final da pandemia. Uma campanha de arrecadação de fundos foi lançada na plataforma apoia-se em junho para contribuir com os custos do trabalho.

Cristiano, como foi que vocês noticiaram a baixa testagem em Minas?

No começo, como o estado divulgava o número de casos considerados suspeitos, dava para a gente ter uma noção mais clara dessa situação. Tanto que, naquela época, como eu fazia esse levantamento todos os dias, foi me chamando a atenção que o número de suspeitos aumentava numa velocidade muito grande e o número de testes num ritmo muito menor. E essa diferença estava ficando cada vez maior.

Então, quando chegou em 100 mil notificações, eu fiz esse levantamento comparando com outros estados, e conclui que naquele momento Minas era o estado que tinha a menor testagem do Brasil. Tanto em termos proporcionais, de quantidade de testes por pessoa, quanto a proporção entre o número de casos testados dentro do número total de notificações. Aí o governo infelizmente mudou a maneira de divulgar esses dados depois, passou a divulgar só os números referentes aos casos confirmados. Hoje tem algumas formas ainda de tentar medir isso, mas é muito mais limitado. É impossível, eu diria, de se fazer um acompanhamento diário.

Fica parecendo que o governo quer esconder o número de infectados?

Eu não diria isso, não dá para saber. Houve um momento em que tinha uma confusão entre os discursos. Aconteceu, por exemplo de na mesma semana o secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, falar que Minas não estava testando porque precisava economizar insumos, porque não tinha condições, e o governador Romeu Zema (Novo) dizer que preferia investir em UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) porque teste só servia para acabar com a curiosidade de acadêmicos.

Teve momento em que a secretaria de Saúde dizia que era uma estratégia diferente mesmo, que eles só iam testar pacientes sintomáticos, os graves ou dentro de alguns grupos como profissionais de Saúde, grupos que viviam em ambientes fechados, penitenciárias, enfim. É difícil avaliar. Como não é minha especialidade, eu prefiro só reportar e não opinar.

Você acha que o trabalho de vocês ajudou a pressionar a forma de o governo divulgar os dados?

Eu não acho, eu tenho certeza. Me lembro exatamente o primeiro dia que liguei lá na assessoria, no primeiro boletim, perguntando se eles tinham intenção de abrir os dados no formato de planilha, porque em PDF é ruim. Eles estavam soltando um PDF com os números. É lógico que foi um trabalho que foi sendo aprimorado ao longo do tempo, mas quem trabalha com dado sabe que PDF é muito complicado, muda a grafia, muda o formato, você precisa ter alguma ferramenta para arrastar os dados, colocar isso numa planilha que você possa aplicar filtros, fazer contas. Depois de 52 dias e muita pressão e outras entidades que abraçaram a causa, o governo começou a abrir os dados em um formato mais acessível. Mas até esses 52 dias, a divulgação continuava lá como um PDF, em um formato super difícil de ler, de analisar.

Qual é a importância de abrir os dados da pandemia?

A pessoa que mora lá em Nanuque, ou em Manga, no Norte de Minas, ela tem o mesmo direito de saber se já tem caso ou não, tanto na cidade dela quanto na capital. Isso para ela poder também tomar as próprias atitudes, saber se ela está numa situação tranquila para continuar trabalhando, se ela vai fazer quarentena ou não. Enfim, a informação cada um faz o que quer com ela, mas acredito que a pessoa tem direito de saber.

Demorou para o governo abrir, a gente insistia, publicamos no site, continua lá o texto original, um manifesto de porque que estávamos abrindo essa base de dados, porque a gente acha que é um direito das pessoas ter um controle maior sobre a situação em nível municipal, não só os números agregados pelos dados, ou só na capital. Nossa ideia, nossa política, digamos assim, é manter o conteúdo aberto. verificável e também reproduzível. E temos mantido um jornalismo de alto padrão, sempre dando tempo à assessoria e publicando as respostas. A nossa intenção é trabalhar sempre dessa forma aberta, colocando os links originais, as notas do governo na íntegra, para quem quiser se aprofundar no assunto. 

Diante do chamado apagão de dados do Ministério da Saúde, como você avalia a situação de Minas Gerais?

No começo era muito ruim. A gente teve uma importância tanto no sentido facilitar o acesso quanto de pressionar o governo a abrir esses dados. Teve um reforço importantíssimo, que foi da Open Knowledge Brasil, eles criaram um ranking de transparência. Agora é o contrário, o estado tem um nível de transparência razoável e aí gera um paradoxo, que é o problema geral da transparência pública. É uma exigência dos dias atuais no mundo inteiro que todas as entidades – inclusive privadas mas mais ainda as públicas –, tenham um grau de transparência para controle social e dos outros órgãos dos outros poderes e da sociedade civil e da imprensa. E a partir do momento que você é transparente, quanto mais transparente você é, mais você está exposto a essa fiscalização, a essas cobranças, a quem esteja disposto para contribuir. Ainda mais num momento de crise como esse, em que uma decisão errada pode ter um efeito muito negativo em poucas semanas.

Para finalizar, como é a situação do Brasil em relação do jornalismo de dados hoje no mundo?

Olha, tem muita gente de altíssimo nível, em termos internacionais, eu diria. Tem gente fazendo coisa muito boa e não só nas redações, mas em iniciativas individuais ou em pequenos grupos, como por exemplo o Marcelo Soares. Mas se você for pensar, a internet, ao mesmo tempo que ela é uma grande aliada do jornalismo de dados, é inclusive fundamental para isso, ela também é uma inimiga. Porque você pega um jornal, uma empresa de médio ou até de grande porte, digamos um jornal grande que tem um portal, às vezes ele redige uma matéria ali em poucos minutos com um bom título que vai dar tantos mil acessos e tantos cliques, anúncios, patrocínios etc.

Agora, você pega um produto de jornalismo de dados, ele não é fácil de fazer. Por mais que a pessoa tenha uma capacidade de fazer isso mais rápido, você vai ter um processo um pouco mais elaborado, de coletar os dados, de entender esses dados, de extrair dali o que é notícia, de visualizar isso. Vai depender de conhecimento de programação, de infografia. Normalmente vai depender de mais tempo e não necessariamente você vai ter o mesmo retorno no final de notícia. Então eu entendo que para um jornal de médio porte pode valer mais a pena em termos de investimento você investir em produção rápida. É uma lógica parecida com o jornalismo investigativo. A investigação anda junto com os dados, mas são coisas diferentes. Não é toda redação que tem a capacidade de investir em investigação. Mas, sim, o Brasil tem um ecossistema de jornalismo de dados muito forte.

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