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República das Laranjas

República das Laranjas

Quinta-feira, 18 de Junho de 2020. Pouco depois de 6h da manhã, toda a grande imprensa brasileira já noticiava a prisão de Fabrício Queiroz em uma casa de Atibaia pertencente à Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro. Enquanto as redações e jornalistas em home-office do Brasil inteiro apuravam os fatos, a Rede Globo já sobrevoava o comboio do Ministério Público de São Paulo, junto da Polícia Civil, levando Queiroz para um exame de corpo de delito antes de embarcar em um helicóptero rumo ao Rio de Janeiro, de onde havia sido dada a determinação de prisão pelo juiz Flavio Itabaiana de Oliveira Nicolau.

Como ficamos acostumamos a ver durante as espetaculosas coberturas da Operação Lava Jato, a partir de 2014, o acontecimento foi um grande evento midiático. Assim que pousaram no Rio de Janeiro, um novo helicóptero da Globo passou a acompanhar o comboio de Fabrício Queiroz, agora com o Ministério Público do Rio de Janeiro. Jornalistas da Globo News discutiam a operação denominada de “Anjo” ao vivo, enquanto tentavam acertar o próximo destino da carreata: Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar ou Bangu. Os carros logo pararam no IML do Rio para um novo exame de corpo de delito.

O local já estava cheio de jornalistas, incluindo uma equipe em solo da Globo. A imagem aérea foi então cortada para uma transmissão no estacionamento do IML, onde o cinegrafista corria para se aproximar do carro que supunha estar o Queiroz. Por alguns segundos, a imagem seria exatamente como a de um espelho. O reflexo trazia nada mais do que um volumoso grupo de jornalistas se acotovelando para conseguir a mesma imagem de si mesmos.

Disputa parecida vivia a internet, que também já estava bastante alardeada com a notícia. Contudo, no lugar do vidro preto, corria nas redes sociais todas as manifestações e celebrações possíveis com a cor laranja. Brindes de sucos, camisetas de time de futebol e detalhes laranjas no caminho para o trabalho disputaram reações em posts, stories, memes e piadas. Não era nem meio dia e o 18 de Junho ganhava um sádico e vitorioso tom de celebração para grande parte da população brasileira que já tinha perdido a capacidade de sonhar. Depois de tomar sete gols e responder com alguns chutes na trave com investidas recentes do STF, o time da oposição finalmente conseguia marcar um de volta.

Fazer da laranja

Apesar de estampar na internet uma das maiores campanhas em busca de pessoas desaparecidas, o policial militar reformado Fabrício Queiroz, velho amigo do presidente Jair Bolsonaro, não era um fugitivo. Ex-assessor e motorista do senador Flávio Bolsonaro quando o filho 01 do presidente era deputado estadual no Rio de Janeiro, Queiroz se tornou um tanto famoso no final de 2018. 

O presidente Jair Bolsonaro com o filho Eduardo Bolsonaro e Fabrício Queiroz.

Em dezembro daquele ano, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicava movimentações atípicas em sua conta, totalizando mais de um milhão de reais. A investigação sinalizou que corria no gabinete de Flávio Bolsonaro um esquema conhecido como Rachadinha, onde assessores devolvem parte de seus salários para parlamentares. 

Além de seguidos depósitos de R$2mil feitos na conta do então deputado, todos registrados dentro da agência bancária da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro no mesmo dia em que os servidores recebiam os salários, a investigação encontrou um cheque de R$24mil de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro, esposa do presidente, além de pagamentos de mensalidades da escola das filhas de Flávio.

Flávio Bolsonaro e o ex-motorista e assessor Fabrício Queiroz

No mesmo gabinete também estava empregada a esposa de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar, e a mãe e esposa do Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), tido como o líder do “Escritório do Crime”, braço armado da milícia que age na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A investigação também mostra que Adriano teria movimentado mais de R$400mil para as contas de Queiroz.

Adriano da Nóbrega, considerado um dos suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco, em 2018, tem no currículo uma Medalha Tiradentes. A honraria foi concedida por Flávio Bolsonaro, em 2005, como testamento de “serviços relevantes” prestados ao estado. No início deste ano, o ex-capitão foi morto em uma operação policial na Bahia, enquanto se escondia em um imóvel do vereador Gilsinho da Dedé, do PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro chegou à presidência. 

Queiroz foi preso na última quinta-feira não porque fugia, mas porque estaria coordenando manipulação de provas e pressionando testemunhas. Segundo o caseiro do imóvel, o ex-assessor de Flávio estaria ali há pelo menos um ano. Durante todo este período, aumentaram não só as perguntas de onde ele estaria, mas também o seu grau de potência corrosiva dentro da família Bolsonaro. 

Uma Laranjada

A Rachadinha e o uso de laranjas são algumas das práticas corruptivas mais comuns na política nacional. Esta não é a primeira vez em que se revela um esquema de corrupção onde servidores ou candidatos fantasmas emprestam seus nomes e contas bancárias para fins ilícitos.

Contudo, tratar o Queiroz simplesmente como um “laranja” é um termo eufemístico muito doce e colorido tanto para seu suspeito papel de operador financeiro de um grande esquema de corrupção, chefiado por Flavio, como também distrai outro crime que rodeia o círculo de relações do presidente e de seus filhos.

Da mesma forma, é preciso cuidado ao bater palmas para um dramático suspense televisivo, mesmo no momento em que se registra calorosamente e veementemente a prisão do seu bandido favorito. 

A determinação da prisão, vale lembrar, foi feita pelo mesmo juiz que condenou a prisão de ativistas após as manifestações de Junho de 2013 por associação criminosa e corrupção de menores. Na época, Flavio Itabaiana de Oliveira Nicolau foi contestado pelos parlamentares Ivan Valente, Jean Wyllys, Chico Alencar e Jandira Feghali, que fizeram reclamação formal ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça), sob argumentação de que o magistrado reprimia “delitos imaginários forjados pelos aparatos da repressão governamental”. Flavio Itabaiana respondeu: “O objetivo claro dessa ação é me intimidar. Aliás, está para nascer homem que irá me intimidar”.

Entender o desenrolar desta história criticamente é importante para quem brinda com sucos de laranja não acabar sendo alaranjado pela imprensa e pela política brasileira novamente. Afinal, um outro espetáculo político-midiático que os helicópteros transmitiram foi justamente aquele que levou a eleição do atual presidente.

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