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Rebeldes com Causa, Rebeldia é Correr em Casa

Rebeldes com Causa, Rebeldia é Correr em Casa

Devia ser próximo de cinco da tarde quando o Junior Negão me ligou lá do Rio de Janeiro pedindo para calçar os tênis de corrida e me preparar para um corre que sairia às seis. Eu teria estranhado essa ligação já no antigo mundo normal (que não era tão normal assim), dada a nossa distância geográfica. Mas o convite fica ainda mais estranho quando estamos no meio de uma pandemia e compartilhamos do mesmo entendimento que infelizmente não é tempo de correr junto dos nossos amigos.

Junior é um dos nomes por trás da Ghetto Run Crew, movimento de arte, corrida e ocupação urbana que surgiu na Zona Norte carioca lá em 2013 com a intenção de fomentar o corre como um instrumento de contato com a cidade. Foi a partir deles que o Calma, aqui em Belo Horizonte, teve o ímpeto de se emancipar de um grupo de WhatsApp que fazia caminhadas para se tornar uma crew com corres semanais. De repente éramos 300, 500 pessoas correndo juntas lá fora.

Ghetto Run Crew no velho mundo normal, que não era tão normal.

Perto de seis horas, Junior me manda um link por mensagem. Entro em um chat do aplicativo Zoom, onde estão pelo menos mais quinze pessoas e ele está se apresentando: “Nós já estamos acostumados a olhar os espaços que a gente ocupa de forma diferente. Então, olhar a nossa sala de forma diferente, acho que é a nova perspectiva, são os novos tempos”. À medida que ele vai falando, pessoas em todas as janelinhas vão calçando tênis e liberando espaço no ambiente.

“Todo mundo aqui sabe que o universo da corrida é bem antagônico à necessidade de ficar confinado em casa”, continua Junior. Começa a cair minha ficha que também vou correr dentro de casa e passo a arrumar espaço. “É óbvio que não é nenhuma novidade, tem muita gente da performance que já corre em casa sozinho e faz seus treinos – a gente vem acompanhando isso também. Mas tem muita gente que está na rua.”

Junior Negão apresentando a ideia para geral

Volto à encarar a tela, que agora tem mais de vinte pessoas, a tempo de ouvir Junior falar: “A nossa proposta como rebeldes da rua – se é que a gente pode tomar isso como uma rebeldia – é ficar em casa, né?”. Todos escutam. “E por que não se juntar?”, provoca, já explicando: “Uma vez por semana, todo mundo afasta os móveis das salas de 10m2 ou de 100m2… A proposta é você correr aí no seu espaço. Você pode correr em círculos, ou você correr para frente e para trás. Se você puder correr em círculos é melhor”, indica.

“A nossa proposta como rebeldes da rua – se é que a gente pode tomar isso como uma rebeldia – é ficar em casa, né?”

No chat há pessoas do Rio de Janeiro (Zona Norte, Rocinha, Vila Vintém), Belo Horizonte, São Paulo e até em Londres. Em uma das janelas, a DJ Ingrid Nepomuceno está à postos (ou “online”), só esperando a hora de começar. Junior segue: “Segundo dados, é a primeira vez do mundo, do novo mundo, que a gente vai ter um corre ao vivo com uma DJ tocando. Esquenta os motores aí que o bagulho vai ficar sincero agora”.

Ingrid solta Eu Vou pro Baile da Gaiola e, em segundos, somos vinte, trinta janelinhas em movimento contínuo e alucinado pelos mais diversos ambientes possíveis. Enquanto corro na minha casa de 25m2, há quem corra na cozinha, no quintal, na copa, no quarto ou na lavanderia. Há quem corra em círculos, conforme sugestão, há quem só consiga ir e voltar. Um dos corredores ostenta um cachorro. Uma corredora se entrega ao funk entre um passo e outro. Por vinte minutos não há nenhuma dúvida de que estamos de fato correndo juntos. 

Rebeldes em casa

“Quando a gente fala de corre, é justamente o desafio de respeitar os seus espaços. Tem muita gente saindo de casa com a bala voando, tá ligado?”, retoma depois Junior, com todas as janelinhas cheias de sorrisos e suor. “Quem somos nós para dizer o que o corredor pode ou não fazer, mas a gente entende muito de rua. E, no nosso conceito agora, rebeldia é ficar em casa. Então, se puder ficar em casa, fica.” E assim ficamos, depois, porque ainda tinha o after com a Ingrid. Haja preparo – especialmente em tempos de pandemia.

DJ Ingrid Nepomuceno soltando o som para as corredoras e corredores

Para ficar por dentro dos corres da Ghetto é só seguir instagram.com/ghettoruncrew.

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