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O Novo Anormal

O Novo Anormal

À medida que o tempo vai passando, mais vamos entendendo que não vai existir um dia ou uma data específica em que tudo vai voltar a ser como era antes. Primeiro, pelo óbvio: nada, nunca, volta a ser como era antes. Segundo porque, ainda que este dia específico estivesse relacionado à criação de uma vacina, haveria um dilatado tempo entre a produção, a distribuição e a vacinação de cada pessoa no mundo, no Brasil, nos estados e nas cidades. Isso sem falar em possíveis traumas e possíveis adaptações do vírus. Portanto, mesmo no cenário da vacina, desconsiderando outros desafios, cada pessoa teria o seu próprio dia de “retorno”.

Conforme vamos aceitando a imposição desta nova realidade como algo menos temporário, enfrentamos o luto de tudo aquilo que sentimos ter perdido. Sejam liberdades, individualidades ou coletividades, passamos a absorver a necessidade de habitarmos o presente. Ou aquilo que midiaticamente vem sendo chamado de “novo normal”. Contudo, este que já seria um exercício pesaroso por si só, torna-se ainda mais desafiador quando uma guerra de narrativas políticas e ideológicas se sobrepõem à questões técnicas ou científicas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o isolamento social está entre as medidas mais efetivas para a contenção do avanço do vírus e, consequentemente, a melhor forma de evitar um colapso de hospitais e unidades de saúde. É certo que a maior parte da população mundial já leu e entendeu esta mensagem. Em um mundo mágico-igualitário acometido por uma doença viral, estaríamos todos em casa, isolados sozinhos ou com as pessoas mais próximas, esperando algum(a) brilhante cientista criar, testar e comprovar a eficiência de uma vacina. Porém, não habitamos um mundo mágico-igualitário – e a pandemia desenha isso melhor do que nunca.

Segundo a especialista da ONU para o direito à habitação, Leilani Farha, “Existem 1,8 bilhão de pessoas em todo o mundo vivendo em condições repugnantes de moradia e sem teto, às vezes sem sequer um banheiro.” Só no Brasil são 33 milhões de brasileiros sem ter onde morar, segundo relatório de 2018 do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Esses são apenas alguns dados daquele mundo que era quase sempre normalizado como… normal.

Desde o início da pandemia, parte da imprensa e internet brasileira tem feito um ótimo trabalho em salientar todo esse abismo sócio-econômico que dimensiona as diferentes realidades e possibilidades de enfrentamento da proliferação do vírus. Na mesma semana em que o sistema de saúde entrava em colapso no Norte do país, com médicos precisando escolher quem receberia respiradores, houve quem pegasse UTIs aéreas para se tratar em São Paulo. Uma viagem destas, de Belém para a capital paulista, chega a custar R$120mil.

Imagem de divulgação da empresa de UTI Aérea Brasil Vida. Uma viagem de Belém a São Paulo chega à custar R$120mil.

É impossível esperar que toda a população enfrente o vírus da mesma maneira, se nem todas as pessoas vão ter os mesmos recursos ou ferramentas. Se estamos comparando o momento como uma guerra, é feito esperar que um grupo armado com espadas de plástico tenham as mesmas chances de vitória que um grupo armado com metralhadoras de última tecnologia. Quem não entendeu ainda a diferença de acessos, direitos e privilégios que habita o Brasil, é porque não quer entender mesmo.

Fuso Horário Europeu

E é justamente a negação do Brasil em se entender que torna tão difícil a crença de que sairemos desta pandemia melhor. Tão logo a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia do novo coronavírus, no dia 11 de Março, a mensagem logo se espalhou em um misto de clara preocupação, mas também com alguns lapsos de otimismo de que este efeito global poderia enfim transformar costumes e sistemas vigentes. Mergulhados em um regime tão voraz de tempo, esta pausa forçada criaria enfim uma grande possibilidade de auto-análise, algo impensável dentro de rotinas tão congestionadas e inebriadas por buscas quase sempre inalcançáveis. 

À essa altura, o Brasil ainda relatava os primeiros casos da doença em território nacional, mas importamos o sentimento do sofrimento que vinha da Europa – especialmente da Itália. No dia 19 de Março, enquanto a Itália registrava mais de 40mil casos confirmados e 3400 mortes, o Brasil tinha menos de 500 casos efetivamente confirmados e quatro óbitos. Durante todo o mês de Março, a maior parte do Brasil não só entenderia a mensagem de ficar em casa, como homenageava, cantava e se solidarizava com quem não podia ficar.

O músico Luis Carlos Colman e sua esposa em apresentação na varanda de casa, no Mato Grosso do Sul. Imagens como essa se tornaram comuns quando o Brasil ainda registrava poucos casos da Covid-19. E desapareceram agora, que o novo coronavírus circula de forma ainda mais voraz. (Foto/Luis Carlos Colman)

Hoje, passados pouco menos de quatro meses desde o início da pandemia, enquanto a Itália dá progressivos passos de reabertura com uma expressiva redução no número de casos e mortes, sendo menos de 10 óbitos por dia, o Brasil parece importar novamente o sentimento do país, reabrindo atividades não essenciais, shoppings e normalizando uma maior circulação de pessoas nas ruas. Contudo, temos aqui pelo menos 20mil casos por dia, além de seguidos boletins que registram mais de 1000 mortes diárias. É como se vivêssemos em um fuso horário europeu, assistindo apenas o noticiário internacional. 

Luto

O problema talvez resida justamente no fato da dificuldade de assimilarmos e processarmos os fatos. Evitar a imprensa não resolve as pesarosas notícias que dominam o país. Toda essa negação ou abstração revela a dificuldade do Brasil em lidar com o luto. Antes mesmo de processarmos as nossas perdas ou tristezas, estamos em contínuo escárnio contra a nossa cultura e nossos valores. É afinal o Brasil do genocídio indígena. O Brasil dos porões da Ditadura. É o Brasil do sete a um. O Brasil que esqueceu ali da sua própria raça, força, fôlego e orgulho. E passou a vestir a camiseta da seleção não como um sentimento de superação. Mas como uma espécie de legitimação da própria derrota.

E a liderança desta legião resiliente de camisas verde-amarelas é um governo federal violento e omisso, que em nenhum momento se solidarizou com as vítimas e famílias (e daí?). Que está há quase dois meses sem um ministro da saúde. Que resiste em se alinhar e buscar ações comuns junto dos estados e municípios nos enfrentamentos sanitários e soluções financeiras que possam garantir que as pessoas e empresas tenham o direito e a possibilidade de ficarem isoladas durante as fases mais críticas desta pandemia.

Ilustração do artista Luís Matuto inspirada em imagem do fotojornalista Roberto Parizotti.

O resultado desta abstração do luto e da figura de um presidente indiferente é que progressivamente a população vai retornando às ruas, justamente no momento em que chegamos a um dos picos de circulação e contaminação do vírus. E todas as vezes em que se flexibiliza o isolamento, sem a segurança de medidores e indicadores recomendados pela OMS, se flexibilizam também as vidas.

Conforme deixamos de nos preocupar e de nos cuidar, estamos flexibilizando o carinho que temos com os próximos – e também o carinho que temos com nós mesmos. Não é uma normalização da vida, mas sim das mortes. Não é uma volta ao normal. É simplesmente e infelizmente a aceitação de um ainda mais duro e cruel novo anormal.

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