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O filme de um grupo de teatro que não pôde seguir fazendo teatro

O filme de um grupo de teatro que não pôde seguir fazendo teatro

“De repente, a coisa que estudei, a coisa que tem 20 anos que faço, que me preparei para ser, a sensação é que a coisa, puf, explodiu e, tipo, acabou”. Do outro lado da linha, o ator e diretor Marcelo Castro manifesta uma risada, depois de começar nossa conversa com esta frase um tanto trágica. Estamos vivendo uma linha tão tênue entre o que é verdade – ou o que é alucinação – que o momento embaralha ainda mais as estranhas fronteiras entre a comédia e a tragédia. Como se vivêssemos em um contínuo e clássico “rir para não chorar”.

“O que define o teatro é a presença”, explica Marcelo. “É o espectador e o ator em um mesmo tempo e espaço. Tem a ver com aquele espaço, aquela história, com aquele tamanho de sala, com alguém ter que alcançar 60 pessoas com a própria voz.” O público é, portanto, parte fundamental do dispositivo, uma figura intrínseca na constituição da mensagem, como se só existisse uma peça se houvesse plateia – e só haveria plateia caso estivesse agendada uma peça.

Dito isso, fica estranho pensar em qualquer adaptação do teatro para um formato virtual, ainda que filmado em tempo real. “As coisas que tenho visto, essas transmissões ao vivo, sem público na sala, é outra linguagem. Porque tem várias escolhas de câmera sendo feitas ali. Tanto de enquadramento e também pelo simples fato de não ter a presença da emoção. Quando você vê um teatro filmado, é um clichê de teatro. Parece estranho demais porque parecer over, sempre parece, sei lá, melodramático”, destaca o diretor.

Quer ver escuta

Sem possibilidade de plateia, a peça que Marcelo estava dirigindo com Vinícius Souza e ensaiando com o Grupo Galpão, fruto de três anos de pesquisas sobre poetas brasileiros contemporâneos – Quer ver escuta – precisou ter a data de início cancelada. “A gente ia estrear no Festival de Curitiba, no dia 3 de Abril, mas paramos no dia 18 de Março, faltando 15 dias. Estávamos ensaiando de manhã, de tarde e de noite, loucura…”, lembra Marcelo.

E existia na peça algo especialmente delicado em optar por algum tipo de adaptação para uma linguagem virtual: “A gente custou a encontrar um lugar que não fosse fácil, que não fosse um lugar da comunicação fácil, que não tivesse a ver com justamente esse lugar da poesia instagramável, que não fosse uma coisa do belo nas palavras. E sim uma coisa que tivesse mais a ver com um estranhamento da poesia”.

“A gente custou a encontrar um lugar que não fosse fácil, que não fosse um lugar da comunicação fácil, que não tivesse a ver com justamente esse lugar da poesia instagramável, que não fosse uma coisa do belo nas palavras.

Na última semana antes de pararem, Marcelo diz terem encontrado enfim uma resposta: “E tinha muito a ver com a presença! Era um jogo dos atores com o tempo e com o espaço, um jogo o tempo todo, um caminho bem sensível e uma coisa super arriscada para os atores”.

Adaptação

Marcelo logo notou o “baque” da pandemia nos atores e atrizes do Grupo Galpão. “Imagina, essas pessoas fazem mais de 200 apresentações por ano. Talvez seja o grupo que mais se apresenta no Brasil. São pessoas que há quase quarenta anos fazem isso, viajam o ano inteiro. A galera não sabe o que é ficar em casa”, destaca.

Nas semanas seguintes, o grupo passou a ter encontros regulares, via aplicativo de conferências Zoom, para pensar em uma peça para o Circuito em Casa, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte que tem intuito de fomentar o cenário cultural local em tempos de isolamento.

“A gente tentava fazer, falar os poemas, experimentar algumas coisas que a gente fazia na peça, algumas ações… Mas aí saquei uma coisa rolando que, enquanto fazíamos isso e eu gravava essas reuniões do Zoom, pensei, ‘Cara, estou registrando um momento que talvez nunca mais vai acontecer’”.

Mas aí saquei uma coisa rolando que, enquanto fazíamos isso e eu gravava essas reuniões do Zoom, pensei, ‘Cara, estou registrando um momento que talvez nunca mais vai acontecer’”.

“Essas pessoas, esses atores, tendo que lidar com essa situação neste momento. Durante o mês de Abril, eles estavam pela primeira vez entrando em conferências virtuais, pela primeira vez lidando com este dispositivo… Tudo isto neste momento histórico, onde estão acontecendo estas coisas”.

E foi encarando a tela do Zoom, em um efeito vertiginoso da metalinguagem pulsante, que Marcelo teve uma ideia: transformar este desafio em um documentário. “Chamei um cara que entende disso, o Pablo Lobato, e comecei a trocar ideia com ele enquanto gravava. A gente fez dez encontros e agora o Pablo está montando esta historia.

Foto do filme-ensaio por André Baumecker

Filmado quase integralmente com o recurso de “registro de tela” do Zoom, o documentário estreia hoje, 4 de Junho, e fica em cartaz até dia 14 de Junho no canal da Fundação Municipal de Cultura no YouTube. As exibições serão entre quinta e domingo, sempre às 20h. “Estamos falando que é um filme-ensaio, porque tem um caráter de ser ensaístico mesmo. Enquanto fazemos o filme, a gente está pensando sobre o que é isso, o que estamos fazendo”.

Sobre o nome, Marcelo conta: “Éramos em Bando”. Pergunto o que serão agora e o diretor responde: “Quando você vê aquela telinha de Zoom com dez pessoas, de alguma forma também é um bandinho. É um bandinho de solidões, solidões compartilhadas. Já o filme, ele reflete sobre ele mesmo. Porque é realmente muito louco, a gente também não sabe. O que sei, é que não é teatro”. 

Éramos em Bando fica em cartaz no canal da Fundação Municipal de Cultura no YouTube entre 4 e 14 de Junho, com exibições às quintas, sextas, sábados e domingos, sempre às 20h.

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