Now Reading
Mascorona e a abstração da arte na Nova Era

Mascorona e a abstração da arte na Nova Era

Tão logo a Organização Mundial da Saúde declarou estado de pandemia do novo coronavírus, no dia 11 de Março de 2020, um dos primeiros setores a parar foi o de arte e cultura. Com as antenas sempre ligadas e conectadas com outras partes do mundo, algumas já em quarentenas, os artistas logo importariam para seus países a mensagem e a importância de também se isolar e evitar aglomerações, para impedir a propagação do vírus. Diante da nebulosidade que logo se instaurou, sem ninguém saber a real dimensão do problema, a maior parte dos artistas (como a maior parte das pessoas), também parou de produzir. Nada mais natural, há de se pensar.

Contudo, há de se destacar também a importância da arte como um certo para-raios do sentimento de um tempo. À medida em que os dias de isolamento vão se desenrolando, enquanto alguns artistas se dedicam a visitar produções antigas e atualizar portfólios, outros já assumem um papel de captar, tensionar, questionar e mergulhar nos presentes tempos em que estamos vivendo. Seja de forma política, crítica e literal. Seja à partir da abstração. Foi neste cenário de rápida assimilação, ainda que de forma despretenciosa, que o projeto “relâmpago” Mascorona nasceu.

“O perfil nasceu de repente, bem no comecinho da quarentena. Fiz uma máscara inspirada no Saul Steinberg, um artista que nasceu na Romênia, mas morou nos Estados Unidos a vida inteira. Foi super despretensioso, não era muito atrelado à quarentena, nem nada, foi só um experimento gráfico, visual, que estava testando”, conta a artista gráfica Rita Davis, de Belo Horizonte. “E aí quando o Filipe e o João viram, eles empolgaram demais e sugeriram que eu fizesse um desafio nos Stories. As pessoas super se engajaram, passando de uma para o outra e começou a ter muita gente fazendo máscara. Foi quando a gente decidiu criar o perfil para registrar e para manter como uma galeria mesmo, de máscaras”.

Também artistas gráficos, Filipe Lampejo e João Emediato cultivam o mesmo interesse de Rita por trabalhos de design editorial, identidade visual, trabalhos autorais, sempre tentando se relacionar com arte. “Gostamos muito de trabalhar manualmente nos nossos projetos. Então produzir as máscaras em casa, registrar, é um processo bem familiar da nossa forma de trabalhar com design”, conta Rita, que junto de Filipe e João contam hoje com apenas cinco das mais de 180 máscaras que já compõem o acervo do projeto.

Primeira máscara criada pela artista gráfica Rita Davis e que despertou a ideia do projeto Mascorona

Máscaras que contam histórias

Ainda que o ímpeto inicial não tenha sido de despertar o trabalho de artistas para uma nova realidade, o perfil foi logo tomado por criadores visuais. Rita detalha: “O projeto sendo colaborativo trouxe uma enormidade de significados para as máscaras. Algumas das máscaras são de pesquisas mais aprofundadas, de pessoas que já trabalham na área: artistas, atores, pessoas que já pesquisam máscaras. E outras, são de pessoas que estão ressignificando objetos pessoais, de casa, de materiais que elas têm em mãos.”

Algumas significam sensações, desejos e angústias durante a quarentena. Outras são de pesquisas super profundas, que são mais complexas. Mas todas de alguma forma são um canal para abstração da realidade.

“A gente começou a ler algumas coisas e tem um texto legal do Foucault que chama O Corpo Utópico. Ele fala do nosso corpo enquanto ator utópico quando a gente pensa em máscara. O ato de usar máscara configura em adquirimos outro corpo mais belo. É fazer o corpo entrar em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis”.

Os resultados expostos no perfil são bastante diversos: “Algumas significam sensações, desejos e angústias durante a quarentena. Outras são de pesquisas super profundas, que são mais complexas. Mas todas de alguma forma são um canal para abstração da realidade. As pessoas surpreendem, trancadas em casa, coisas loucas acontecem, objetos inesperados vão parar colados na nossa cara”, conta Rita, que tem até dificuldades de escolher uma máscara favorita.

“Teve uma criança que foi bem engraçado. A menina estava olhando o Instagram com a mãe, adorando. Aí um pouco depois, a menina foi para o quarto e voltou com um lápis pregado no meio da cara com um durex. Só isso. A mãe achou a melhor máscara do mundo, tirou uma foto super legal, com a menina posando para a foto bem blasé, igual as fotos que estão no Instagram mesmo – e aí ficou uma das melhores da página.”

Olívia, 5 anos

Competição & Coletividade

A disputa por se figurar entre as melhores da página é inclusive um motivo de preocupação: “Muita gente ficou viciada! Muitas pessoas falam pra gente que estão completamente viciadas em mascaramento, que olham pra tudo dentro de casa e querem tacar na cara. Tem gente que fez tipo vinte máscaras diferentes, não consegue parar. Tem uma tia minha que falou que não tá conseguindo dormir. ‘Eu não estou dormindo, sonho com máscaras, quero fazer a melhor máscara!”, conta, rindo. 

Leena Reittu (@leena.reittu)

Mas muito além da competição, o que tem tocado Rita é ver o despertar de um sentimento de coletividade muito potente e necessário para os dias que estamos vivendo. “Durante esse período de isolamento, a força da coletividade uniu completamente. E essa co-autoria, todo mundo se sentir parte do projeto, é uma forma muito massa de estreitar parcerias e lembrar que a gente não está sozinho nessa. Que dá para criar junto, se inspirar no trabalho do outro. Que a gente possa continuar essas formas de criação coletiva depois da quarentena”.

Mascorona Pós-Corona

Apesar de ser um sucesso hoje no Instagram, reunindo criações de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Salvador e até mesmo dos Estados Unidos, Inglaterra, França e Polônia (!), além de 7mil ávidos seguidores, a ideia é excluir o perfil assim que a quarentena acabar. Rita explica:

“É um momento de todo mundo em casa, né? A gente queria que fosse uma coisa datada mesmo. O projeto só existe por causa do Corona, chama Mascorona e só existe porque está todo mundo em casa. Ele está muito atrelado a este período. A nossa ideia é fazer jus a esse momento e pensar em um desdobramento físico depois, como se fosse um marco. Pensar em um desdobramento editorial.”

Será o fim do perfil, mas não um abandono total do projeto. ”A gente pretende dar um fechamento no fim da quarentena, poder compartilhar com todo mundo de outra forma, no mundo real, que é onde a gente vai estar. É como se acabasse a era virtual e a gente fosse se reencontrar com as máscaras em mãos. Essa é uma ideia, mas nada certo. É o que a gente imagina que vai acontecer”.

View Comments (0)

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Scroll To Top