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Guerra das Narrativas nos Tempos da Pandemia

Guerra das Narrativas nos Tempos da Pandemia

Neste último sábado, dia 13, completei três meses em isolamento social. Naquela primeira quinzena de Março, o Brasil anunciava os primeiros casos de Covid-19 e se via diante de um cenário de grande nebulosidade. De maneira instintiva, mas também em resposta ao noticiário que trazia histórias de outros países que já enfrentavam o vírus, a reação mais comum a todos que puderem – e mesmo a muitos que não podiam – foi de parar, evitar as ruas e se recolher em casa.

A internet, é claro, entrou em polvorosa. 

Enquanto algumas pessoas começaram a pedir que todo mundo ficasse em casa, como forma de evitar a proliferação do vírus, outras prontamente responderam que ficar em casa era um privilégio de classe. A réplica de quem pedia para ficar em casa foi dizer que “ficar em casa” não era um privilégio, mas sim um direito. Até que começou a circular na internet o significado da palavra privilégio que, segundo o dicionário, é um “direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio, regalia.” 

Houve também quem logo começasse a “romantizar” a quarentena, exaltando a possibilidade de enfim pararmos para refletir, amar, criar e mudar de hábitos. Brotaram centenas de milhões de cursos, aulas, lives, livros e séries que pudessem nutrir ou abstrair o momento de alguma maneira. A estes chamados, viriam respostas que a quarentena não deveria ser romantizada e também que não deveria ser encarada como um “concurso de produtividade”. Houve portanto quem achasse que estávamos diante de uma “oportunidade” e também quem condenasse todo mundo que defendesse tirar proveito de tão delicado momento.

Imagem que ficou famosa nas redes sociais nas primeiras semanas de quarentena no Brasil. “La cuarentena es una medida necesaria, pero no deja de ser un privilegio”, escreveu o autor peruano Arturo Ayala Del Río.

Estes são apenas alguns capítulos de uma grande guerra de narrativas em curso desde que a internet abriu caminhos e dispositivos para todo mundo se comunicar e se posicionar. E, devo dizer: de nenhuma maneira estou tratando isso como novidade ou desconsiderando o debate como um importante instrumento de crescimento de uma consciência coletiva. Contudo, em um país tão pouco acostumado a revisitar sua própria história, faço uma regressão não só aos últimos três meses, mas vale visitarmos o também recente e indigesto Junho de 2013.

Vem Pra Rua, Vem

Parece que foi ontem o confronto da polícia com os manifestantes que contestavam o aumento de R$0,20 no transporte público de São Paulo. Ao mesmo tempo, parece que faz uma eternidade. Estes não seriam os primeiros atos contra os reajustes de passagens no Brasil, mas a resposta violenta da polícia, transmitida ao vivo por mídias livres, em um palco tão emblemático como a Avenida Paulista, aqueceram uma alardeada chama que logo se espalhou pelo país. Em poucos dias, estava eu em Belo Horizonte cobrindo os atos locais, onde já se viam muitas faixas que diziam: “Não é pelos R$0,20”.

Há divergentes visões e versões sobre os fatores que colaboraram para as manifestações de Junho se tornarem as maiores mobilizações de rua desde o impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992. Contudo, é inegável o fato que a pauta inicial foi logo subtraída, ou até mesmo “sequestrada”, quando se coloca em análise todo o desencadeamento político e social que se deu no país desde então. A própria deputada federal Carla Zambelli, do PSL, reconhece autoria na adulteração da pauta. Faixas de “É pelos R$0,20, sim!” foram logo inseridas nas manifestações por àqueles que queriam se ater à questão primordial. Mas seriam minoria na imensidão de reivindicações que se multiplicava na mesma intensidade do volume de pessoas nas ruas.

E muitas pessoas foram para as ruas graças outro jargão que logo se popularizou dentre todos os gritos e cânticos que eram entoados por todo o Brasil: “Vem, vem, vem pra Rua vem”, uma espécie de releitura do jingle cantado por Marcelo Falcão na propaganda da Fiat sobre a Copa do Mundo (que curiosamente tem início com as ruas todas vazias, no mesmo efeito vertiginoso das imagens de quarentena). Este “Vem Para a Rua”, junto de “O Gigante Acordou”, se tornariam os maiores mantras desta vastidão de pessoas que estavam agora nas ruas, contra tudo e contra todos. 

Ainda que a chama inicial tenha sido pelo reajuste de R$0,20, a catarse coletiva que mobilizou o Brasil tinha agora tantas questões e insatisfações que logo se viraria contra o governo petista que, somadas com as contínuas e midiáticas operações da Lava-Jato, a partir de 2014, levariam ao cenário perfeito para o processo de impeachment da presidente Dilma em 2016. Um trauma coletivo de grande parte da esquerda brasileira que passou a assistir bestializada, mais uma vez, a progressiva tomada do poder por militares. 

Fica em Casa

Pois que algumas voltas da Terra redonda fizeram com que muitas daquelas pessoas que gritavam “Vem pra rua”, em 2013, conclamassem hoje: “Fique em casa”. 

Ainda que a expressão agora venha acompanhada de ciência, empatia e de cuidado com o próximo, ela carrega em si um tom mandatário e impositivo que oferece profundo desafio de assimilação por necroativistas e neoliberais que insistem na defesa das tais “liberdades individuais” ou da “economia”, sem nem dissimular um plano alternativo de enfrentamento à pandemia considerável cientificamente. Estes personagens questionam as medidas de isolamento social impostas por estados e municípios, como a interrupção de atividades de empresas e a normalização do uso de máscaras.

Contudo, para além de trazer seus questionamentos para a internet e em clara abstração com o momento crítico que vive o mundo, os negacionistas passam a representar não só a tão esperada “volta ao normal”, como também representam uma corrente que sequer parou. Quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, diz que este é um momento oportuno para “ir passando a boiada”, estes bois não estão apenas abrindo campos na Amazônia. Com o perdão de qualquer analogia, mas a boiada também está nas ruas, nos parques, nas matas e nas montanhas fazendo novas especulações e negócios, disputando espaço com muitos trabalhadores essenciais que de fato não tem opção de ficar em casa.

Quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, diz que este é um momento oportuno para “ir passando a boiada”, estes bois não estão apenas abrindo campos na Amazônia. Com o perdão de qualquer analogia, mas a boiada também está nas ruas…”

E é neste ponto que o Fique em Casa revela o cruel, controverso e inquieto espaço reservado para si. Porque ainda que esteja comprovado que ficar em casa é uma das medidas mais efetivas para conter o avanço do vírus, estas palavras mandatárias, impositivas e sem data de validade, no meio de uma Guerra de Narrativas, podem virar grandes armadilhas. Basta ver que muitas pessoas que condenavam as aglomerações dos necroativistas logo se entenderam na urgência de ir para ruas à favor da democracia e em combate contra o racismo e o fascismo

Junho de 2013 ensina que quando as coisas escalam, é muito fácil perder de vista a pauta fundamental. E agora que a pauta fundamental é também o combate contra o racismo e o fascismo, duas outras perigosas pandemias que também matam muita gente, o desafio é desfazer a guerra das narrativas em torno de um inimigo que também deveria ser comum a todas e todos: o vírus. É preciso tomar cuidado com os atos, os tatos e os ditados. Porque conforme se diz bastante lá no Sertão: palavras têm poder.

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