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A Autêntica encerra primeiro ciclo com legado importante para Belo Horizonte

A Autêntica encerra primeiro ciclo com legado importante para Belo Horizonte

Rua Alagoas, 1172. Desde fevereiro de 2015 este endereço vinha sendo cada vez mais conhecido e querido por todo o público de música autoral em Belo Horizonte. Iniciativa de músicos locais, a Autêntica nasceu com a intenção de ampliar espaço e qualidade de apresentações na cidade, sempre tão carente de palcos onde prevalecessem composições próprias. De lá para cá, foram mais de 900 eventos, que acolheram cerca de 160 mil pessoas em apresentações de rock, rap, jazz, reggae e muita música brasileira contemporânea.

“O ano prometia! Estávamos com um mês de março muito bom de shows, abril melhor ainda. A gente tava decolando, sabe? Era como se a gente fosse colher aquilo que plantamos por cinco anos”, conta Bernardo Dias, um dos sócios da casa, do outro lado do telefone. Bernardo não esconde que está “só o pó”, resultado dos últimos três dias retirando todos os móveis e equipamentos do galpão, que já vinha num processo de ser devolvido para dar lugar à construção de um prédio.

“Quando veio a pandemia, parou tudo. E aí começamos a avaliar se valia a pena ficarmos parados, pagando aluguel, se endividando, sendo que ano que vem teríamos que sair”, conta Bernardo. “E então decidimos entregar o lugar, até para começar a olhar um lugar novo, com calma, respirar um pouco, buscar um novo investidor, talvez um novo sócio e começar de novo no ano que vem”. 

#FoiNaAutêntica

Já que não é possível se despedir do galpão na Rua Alagoas e deste primeiro ciclo da Autêntica, os sócios lançaram uma campanha via Instagram para estimular bandas e público a postarem memórias no local.

Apresentação da banda Carne Doce, de Goiânia (Foto Flávio Charchar)

“Não imaginava que fôssemos tão queridos. Tá sendo muito legal o feedback do público, artistas, falando da importância, da nossa dedicação… Isso está sendo uma injeção de ânimo. Com certeza eu sou um outro cara depois dessa rajada”, conta Bernardo, que confessa ter ficado bem triste com a impossibilidade de deixar o espaço com as celebrações de encerramento que imaginavam.

“Mas, ao mesmo tempo, acho que vai ser bom. Vamos dar uma revigorada, uma fortalecida, novas parcerias, agora com outro nível de know-how, com alcance de divulgação maior. Tá tudo em aberto ainda, mas estamos agindo desde já para construir o futuro”.

Casas de show em tempos de Covid-19

Em face da pandemia e das medidas restritivas de aglomeração que ela traz, Bernardo conta o que tem acompanhado no setor da Autêntica: “A gente faz parte de alguns grupos de casas de shows no Brasil que tem conversado bastante sobre isso. Um deles tem uma 20 casas: Circo Voador (RJ), Opinião (PoA), Casa do Mancha (SP) e outros pontos de cultura no nosso perfil. O que tem se falado lá é que a volta vai ser gradativa”.

“Acho que o primeiro passo vai ser esse, as casas funcionarem com 30% da capacidade, shows com mesas e mesas distantes. Isso está começando a rolar em Portugal, Barcelona… E, claro, com todas as medidas de precaução possível. Gradativamente, surgindo a vacina, acho que vai dentro do desenvolvimento desse processo, que é novo para todo mundo. Naturalmente as coisas vão voltando para o seu lugar”.

Conversas sobre música durante o festival Sonâncias na Autêntica (Foto Flávio Charchar)

Bernardo aponta achar impossível que as coisas não voltem a ser como antes, pelo menos dentro da perspectiva da música: “Não consigo enxergar nenhuma tecnologia que vá substituir a experiência de um show ao vivo, acho que isso não vai acontecer. A galera tá vendo em casa, lives, Zoom… Mas a experiência de um show ao vivo é insubstituível. É uma questão de controlar o vírus para isso voltar a acontecer, shows, festivais”.

O Legado e o Futuro

O músico está otimista que a Autêntica voltará já no próximo ano. E acredita que o público vai ser parte importante deste processo: “Acho que as pessoas estão tendo uma experiência da importância da arte e da música na vida. Como está todo mundo trancado em casa, está todo mundo vendo filmes, ouvindo músicas, lendo livros… E acho que isso vai criar uma valorização maior do público com os artistas”.

Vanguart, que nasceu em Cuiabá, em apresentação na casa. (Foto Flávio Charchar)

Terminada a entrega do atual imóvel, Bernardo, o sócio Leo Moraes e toda a equipe que sempre esteve intimamente presente vão respirar pelos próximos meses e intensificar a pesquisa por novos espaços. Quando pergunto ao músico o legado que a Autêntica deixa, neste primeiro ciclo, consigo sentir um nó na garganta se formando do outro lado:

“Cara, se você tivesse me feito essa pergunta ontem (antes da campanha #FoiNaAutêntica) eu te responderia uma coisa. E, hoje, depois dessa rajada de energias boas que a gente recebeu, eu não sabia que a gente era tão querido e que a gente tinha feito tanta coisa legal. Acho que conseguimos o que a gente mais queria com a Autêntica: que era a ideia, o conceito, a experiência. E a gente conseguiu isso de maneira instintiva. Acho que o que fica é uma esperança de que é possível. Não só possível, mas necessário. É possível um espaço para a música se renovar”. 

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