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A fotografia da polarizada realidade brasileira

A fotografia da polarizada realidade brasileira

Natural de Barra Mansa, cidade no sul do estado do Rio de Janeiro, o recém-formado jornalista Pedro Conforte se mudou para Niterói quando conseguiu um trabalho no jornal O Fluminense. À exemplo de outras rotinas em redações pequenas, precisava fazer de tudo: “Não tinha fotógrafo no período da tarde e da noite, que é quando eu trabalhava. Então acabei tendo que aprender a fazer as fotos. Só assim minhas matérias poderiam sair na capa do jornal”, relembra. “Gostei e acabei me aprofundando. Comprei equipamento, fiz curso. A vontade é ficar 100% focado no fotojornalismo”, conta Pedro, que hoje trabalha no também regional Plantão Enfoco, ainda entre a escrita e a fotografia.

Nos últimos anos, o jornalista esteve fazendo todo tipo de cobertura: “A pauta que tiver que fazer a gente faz. Esporte, Cultura, buraco de rua. Aqui a gente sobe bastante Morro, acompanhando operação policial. Vai na fé, na sorte… Não na sorte, porque a gente está até acostumado um pouco. Acaba pegando alguns ranços. Sabe quando que pode subir, sabe quando não pode. Mas é perigoso do mesmo jeito.”

Fotografia de Pedro Conforte em uma de suas coberturas de operações policiais em Niterói.

O que Pedro não podia esperar é que a primeira de suas fotos a viralizar mundialmente não seria uma das tantas imagens impactantes que produz enquanto está acompanhando os policiais. “Não fazia a menor ideia que isso ia acontecer. Tanto que ela explodiu uma semana, dez dias depois. Já tinha publicado no meu Instagram, mandei para o jornal, o jornal publicou em alguma matéria referente a isso e não deu tanta repercussão”, conta. Contudo, depois que uma página de Niterói pediu para repostar, as coisas perderam o controle:

“Para se ter uma ideia, a foto apareceu na Al Jazeera, no Oriente Médio. Tiraram um print do meu Instagram e apareceu lá. Alguns portais pedem para dar o crédito, outros não dão. Já vi a foto sendo usada por agência de publicidade, tive que pedir para tirar. E aí outras páginas vieram pedir para compartilhar, Quebrando o Tabu… E assim outras maiores. Virou essa bola de neve”.

Direto do front

Talvez uma das maiores proezas da fotografia seja a sua capacidade de nos transportar para determinada memória ou período do tempo. Ainda que não necessariamente estivéssemos lá, às vezes bastam alguns milésimos de segundos encarando uma imagem para mergulharmos na história que ela representa. São assim com fotografias de guerra, com as fotografias do regime militar brasileiro ou mesmo com os registros da era hippie californiana dos anos 1960. Só de as encararmos, nos transportamos para aquele determinado lugar.

Protesto registrado por Pedro Conforte

Sendo a Pandemia de COVID-19 um evento de clara ordem global, é de se esperar que estejam sendo produzidos infinitos textos e fotografias para elucidar o momento que estamos vivendo. Considerando que pelo menos um terço da população mundial está em isolamento, os fotojornalistas cumprem um papel especial de ilustrar a rotina das cidades para as pessoas confinadas. 

“A gente está na ponta, né? Às vezes o repórter, ou quem escreve a matéria, não precisa ir para a rua. Mas o fotojornalista precisa. O fotojornalista está no campo, no front. Óbvio que não tanto como o profissional de saúde, mas também nos expomos ao perigo. O fotojornalismo são os olhos do jornal da população na rua”, lembra Pedro. 

“Tenho conhecidos que vão fazer fotos de velório de casos de COVID. E isso é muito perigoso, às vezes por não ter o equipamento certo. Então, acho isso muito importante, de verdade. Gosto muito, mas neste momento de quarentena é muito perigoso. Porque às vezes a gente precisa ir em locais de aglomeração. Em compensação, a gente precisa estar lá para retratar, noticiar e passar isso para a população. Sem tomar partido, para o bem ou para o mau, é a notícia.”

O Despertar do Bem e do Mau

Nossa percepção de uma imagem costuma dizer mais sobre quem somos do que sobre quem mostra. Segundo a semiótica de Pierce, o signo “é algo que está no lugar de alguma coisa para alguém, em alguma relação ou qualidade”. À medida em que mudamos as pessoas ou os lugares, é possível esperar que também tenhamos diferentes entendimentos e sensações quanto aos objetos. Portanto, nossa interpretação de uma imagem estaria sempre associada à nossa bagagem e convivência social.

“Duas realidades”, a foto de Pedro Conforte que circulou no Brasil e no mundo.

A fotografia do Pedro tornou isso bastante evidente, expondo uma polarização política, social e empática que vive o Brasil e o mundo nos tempos atuais. Um clique rápido, enquanto voltava para casa depois de fazer algumas imagens de drone, além de se tornar uma célebre imagem dos tempos que estamos vivendo, virou também um grande símbolo nacional para discussões em torno do isolamento social ou mesmo do que são as chamadas “atividades essenciais”. 

Não sei o que se passa na cabeça do rapaz de bicicleta ou na do rapaz correndo. Não sei qual é a história deles, mas sei que são duas realidades distintas naquele momento da foto, naquele segundo que congelei”

“O que é essencial para cada um? O que pode? O que não pode?”, questiona Pedro, que destaca os comentários que recebeu na foto: “Pessoa já me xingou por conta dela, outras pessoas elogiaram. Disseram: ‘Ah, ele pode ser um médico que está correndo depois de um plantão e o outro é um trabalhador. Os dois estão certos’. E, cara, pode ser. Mas também pode não ser. E não muda que cada um tem a sua realidade, a sua história. Por isso que tentei ser mais ameno na legenda.”

Pergunto a Pedro se ele acha que a legenda “Duas realidades” contribuiu para as discussões ou para a própria viralização. O fotojornalista acredita que não: “Não precisava de legenda. “Quando as pessoas compartilham, elas não compartilham a legenda. Compartilham só a foto. E aí elas tomam a foto e fazem a legenda para aquilo que elas pensam.” Para ele, “Duas realidades” tem um sentido claro: “Não sei o que se passa na cabeça do rapaz de bicicleta ou na do rapaz correndo. Não sei qual é a história deles, mas sei que são duas realidades distintas naquele momento da foto, naquele segundo que congelei”.

O papel do jornalismo

Pedro também destaca o papel do jornalismo, tão difundido nas academias, mas tão subjugados nas realidades e rotinas: “Todas as pessoas têm o seu viés, têm o que acredita. Mas como jornalista e como fotojornalista, a gente tem que ser o máximo imparcial possível. E o registro é o registro. Seja do panelaço contra o Bolsonaro, seja da carreata pró-Bolsonaro. É notícia. No meu Instagram tem de tudo. Isso acaba levantando um questionamento também. Porque as pessoas discutem”.

Em regime de lockdown desde o dia 11 de Maio, Pedro encerra a entrevista se abrindo: “Acho que está muito difícil para jornalista trabalhar hoje em dia. Não só por conta da quarentena, mas por conta dos ataques. Isso é muito ruim. A gente vê equipes que estão mais na rua, que estão em Brasília, sendo agredidas. Mas a gente tem que continuar na rua. Não sei onde eu vi, mas é aquilo: se o jornalismo agradasse todo mundo, seria publicidade. Tem que in…”. Corrige: “Alguém vai ficar incomodado, né?”

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