As Paredes de Wynwood

Há menos de 10 anos, quem planejasse uma viagem à Miami dificilmente faria um roteiro diferente de praias, prédios art deco, restaurantes, shopping, outlets, casa do Versace, encontre-um-brasileiro e Key West. Tudo se resumiria a Miami Beach, esta cidade-meio-ilha, às margens do longo estado da Flórida, destino tropical de americanos e porta de entrada para os Latinos em Busca da Terra Prometida.

Em 2009 um notório “revitalizador e criador de espaços” chamado Tony Goldman passeou os olhos pela região metropolitana de Miami Beach – do outro lado das pontes e dentro do continente – e vislumbrou sonhos e perspectivas para este bairro chamado Wynwood, próximo de Overtown Miami. Situado entre comunidades de haitianos (Little Haiti) e cubanos (Little Havana), Wynwood enfileirava uma quantidade descomunal de galpões abandonados, advindos de antigas fábricas em funcionamento remoto.

Tony pensou, “Esse grande estoque de galpões de Wynwood, todos sem janela, serão minhas telas para trazer ao bairro os melhores artistas de rua jamais vistos em um só lugar”. Em co-curadoria com Jeffrey Deitch, Tony convidou uma série de artistas renomados para pintar um récem-alugado complexo de seis galpões batizado de Wynwood Walls, entre as ruas 25th e 26th. E esses artistas eram – entre dezenas de outros que viriam a seguir – Shepard Fairey (Obey), Os Gêmeos, Invader, Swoon e Miss Van.

Mas, claro, antes e depois disso, o movimento de street art em Wynwood já engatinhava. Pela farta quantidade de paredes disponíveis – e também pelo policiamento mais brando do que em Miami Beach – artistas e grafiteiros da região deixavam rastros pelos quarteirões um tanto desertos e perigosos. Com o Wynwood Walls, o bairro tornou-se mais visado e, em poucos anos, artistas do mundo inteiro começariam a procurar paredes em branco para pintar.

 

Agora em 2016, o Wynwood deixou de ser um sonho para se transformar em uma realidade de grande impacto econômico e social. Galerias, restaurantes, baladas, lojas de graffiti, brechó, escritórios de publicidade e design – e toda uma gama de negócios criativos – começaram a funcionar pelos quarteirões do bairro. Mais próximo da costa nasceu também o Miami Design District, que reúne lojas européias de moda, decoração e o Instituto de Arte Contemporânea.

Anualmente em dezembro, desde 2002, Miami recebe uma das maiores feiras de arte do mundo, a Art Basel. Durante todo o mês, Wynwood torna-se ainda mais efervescente com dezenas de artistas realizando novas pinturas, aberturas de exposições, festas, encontros e negócios. O movimento é intenso, frutífero e harmonioso. Difícil imaginar outro lugar onde a arte de rua, o graffiti e as galerias de arte tenham tamanho entrosamento e sintonia.

Wynwood ampliou e criou novas plataformas de turismo – atraindo visitantes do bem para interagir com espaços abertos, livres e gratuitos. Retocou a imagem de uma Miami intocável, cara e inacessível. E trouxe de volta o acesso, a circulação de pessoas, o encanto e o deslumbramento espontâneo. O bairro é a pintura de um urbanismo sadio. Foi inteiramente reconstruído através da arte – e criou possibilidades e perspectivas para espaços deteriorados de uma cidade saturada.

A arte como cidadania, como arquitetura, como caminho. Hoje são centenas de painéis pela região – muitos deles assinados por brasileiros como Nunca, Kobra, Crânio e Nove. Wynwood é a meca da street art contemporânea. Quando um sonho de cidade – e de arte – se transformou em franco acontecimento pelas mãos dos artistas do nosso tempo.