Visita a um Ateliê Desalinhado

Desali Atelier

POR MATHEUS COUTO

 

Em uma tarde quente de novembro, sigo para o bairro Floresta com o objetivo de fazer uma visita ao ateliê de um promissor artista mineiro. Na Rua Bicas, esquina com a Jacuí, bato em uma pequena porta, localizada entre duas casas. Espero alguns minutos e não tenho resposta. Será que estou no lugar correto? Desali me informa através de um SMS que está procurando a chave. Ele a encontra na própria porta e enfim o conheço pessoalmente para uma imersão no seu espaço de trabalho que também é o lugar onde ele mora. Um longo corredor me leva ao seu ateliê. Um lugar que possui o chão coberto por materiais, tintas, panos, madeiras, revistas, telas em processo, e uma infinidade de objetos instigantes que nos faz mergulhar na imensidão daquele artista. O que ele se desculpa por estar bagunçado, para mim nada mais é do que a forma como aquele ambiente se configura. Se funciona para ele, não está bagunçado, pelo contrário, está mais do que organizado. Preparo o celular para registrar a nossa conversa que vai desde o seu trabalho como artista, até o seu repertório musical e filosofias vegetarianas. A princípio, ele parece estar um pouco intimidado com a minha presença. Explico o motivo de estar ali e lhe peço que me conte um pouco de sua trajetória:

 

Desali, comece me contando um pouco da sua trajetória. 

Lá no meu bairro, em Contagem, eu desembolava mais quadrinhos. Sacou? Eu comecei lendo muita historia em quadrinho. Meu primo fazia quadrinho e eu também curtia. Era uma época que fazíamos umas coisas diferentes, a publicação Chiclete com Banana, umas edições mais alternativas, heavy metal. Depois eu comecei a trabalhar em um bar e ficava ilustrando o tempo todo. Ai eu fiz o pré-vestibular e entrei na Guignard. Fiz Educação Artística à tarde, não quis fazer artes plásticas porque não rolava muita grana e Arte Educação era mais de boa de entrar. Não formei e peguei obtenção de novo título para Artes Plásticas. Mas eu trampei com arte e educação por um tempo, escola integrada e essas tretas. Eu curtia dar aula e tudo mais e parei outro dia mesmo, uns três meses atrás. Mas eu vou voltar, será só um tempo de pausa porque a demanda está meio puxada. Aí eu saí fora. Aí eu tô aí desembolando uns negócios.

 

E como essa experiência em um curso superior influenciou o seu trabalho?

O que eu mais faço atualmente era o que eu fazia antes mesmo. Quadrinho, pixação, pintura e camiseta. E continuei fazendo pintura na mesma onda que eu fazia antes, umas coisas mais escrachadas, com umas frases que se relacionam com a imagem. O que desembolei lá foi fotografia, trabalhei no laboratório da Guignard, uns dois anos. Curto pra caramba. Eu consegui fazer um pouco de vídeo lá também.

 

Como é o seu trabalho na fotografia? Que equipamento você utiliza? O que você gosta de explorar nesse dispositivo?

Eu gosto de usar umas câmeras pequenas de filme, a Olympus Pen e Instamatic. Uso digital também. Vou pegando essas câmeras em brechó e vou desembolando tudo. Foto eu fiz desde o laboratório analógico, com raspagem de negativo. Até essas digitais. Eu tenho série com pinhole. Vou experimentando ao máximo, as oportunidades que foram aparecendo eu fui caindo de cabeça  até a exaustão.

HD Externo Desali

Desali me apresenta o seu HD externo. Diferente dos pequenos dispositivos onde salvamos os arquivos digitais, o artista organiza seu trabalho fotográfico em pastas que guarda dentro de uma grande caixa de papelão.

Você é um artista que trabalha com uma grande diversidade de suportes. Você se sente livre nesse sentido? Como é a sua sensação ao trabalhar com essa multiplicidade? 

Eu trabalho com muitos materiais descartados que recolho na rua, em lixos, brechós. Vou pegando e montando minhas próprias telas e suportes para trabalhar. Não costumo gastar muito com material não. Eu gosto muito de produzir, sou meio Inqui… Enque… Qual é mesmo a palavra?

 

Inquieto

Inquieto com essas tretas. Não consigo ficar sem trampar.  As coisas vão acontecendo, as propostas vão aparecendo. Quando nos é cedido um lugar a gente vai se relacionando e tentando criar ali, desenvolver projetos.

 

Um desses projetos é o Piolho Nababo, me conte um pouco sobre. Tem quantos anos que você o vem desenvolvendo?

Ah não sei… Sou ruim de data. O espaço que tem hoje no Maletta era antes o Estilingue. Depois fomos itinerante, dando rolé nesses espaços no centro, fazendo leilões e exposições com uns preços acessíveis e democráticos para a galera criar essa ideia de colecionismo. A gente já fez no Bordelo, fizemos no Espanca, fizemos no Palácio da Artes, na ocupação William Rosa. E o doido disso é que o artista circula, aparece em diferentes meios. Rola uma troca mesmo.

Agora a gente formou esse buteco lá no Maletta novamente, que é uma base de troca, de ideias e de outros artistas. O coletivo vai sempre se alternando. Atualmente está eu, o Toledo, o Jaimo e o Will. E já participaram diversas pessoas como o Mosh, o Froiid e o João Perdigão. O coletivo e o espaço vão se transformando. Eu organizei uma exposição na semana passada com um cara lá da Guignard. Já essa semana, vai ter uma outra. E assim vamos tentando sempre fazer algo novo, conversando com os artistas, até que outro aparece e continua o processo. Se um DJ quer tocar, toca! Se uma banda quer fazer um som mais acústico, manda ver! E as coisas vão acontecendo, desde performance, até pintura, teve fotografia outro dia, teve vídeo. A gente está aberto para qualquer tipo de intervenção. Não tem um processo curatorial.

 

E esse projeto acaba por contribuir bastante para a cena de BH. Como você percebe esse movimento feito por vocês?

A gente não quer eleger figuras, queremos criar um espaço de rotatividade e de trocas de ideias. E o formato de buteco mantém isso. A cena aqui em BH é pequena, e isso para o artista é muito bom. Você vai dando rolé e acaba conhecendo uma figura ali, outra aqui. Troca ideia e de repente já ouviram falar de você. Quando você manda um pixo na rua, já rola uma identificação, a galera quer saber de quem é. Isso é doido porque rola uma circulação. Talvez não seja assim em lugares maiores, onde você é apenas mais um.

Bar Galeria Piolho Nababo (Edifício Arcangelo Maletta | Belo Horizonte)

Bar Galeria Piolho Nababo (Edifício Arcangelo Maletta | Belo Horizonte)

 

Muitos te consideram um artista subversivo, que apresenta um trabalho crítico, que vai contra o sistema, que realiza projetos que buscam quebrar com práticas já estabelecidas. Mas ao mesmo tempo, você está inserido no sistema, você faz parte de uma galeria, vende obras para colecionadores. Como é para você lidar com essa dualidade? Se é que existe uma.

 

Existe uma fluidez. Eu estou vendo o que me possibilita cada um desses espaços, tanto os espaços institucionalizados quanto ao que eu já faço naturalmente. Está sendo uma descoberta, perceber como se dá esse processo, dessa arquitetura da arte, da galeria, dos salões, essas instituições. Eu tento relacionar da melhor forma possível o meu trabalho inserido nessas questões. Porque ele não perde essa base mesmo, desde onde eu vim, as áreas periféricas e conceitos mais anarquistas. Acaba que um viabiliza o outro, a partir dessas vendas, através dessas instituições, eu acabo abrindo um leque de opções maiores para que esses outros espaços e projetos possam acontecer.

Por isso eu tenho um pouco dessa relação com a galeria também. Porque eu posso apresentar um trabalho totalmente alterno dessa pegada underground que eu tenho e que não venderia em galeria. Costuma vender algumas coisas, mas depende do comprador, que são poucos para esse tipo de trabalho. Oh! Rapidão! O disco acabou. Vou trocar o vinil.

Levantamos do espaço em que estávamos sentados conversando e percorremos a casa até chegarmos no seu recanto da música, em que se encontra uma coleção com mais 500 discos de vinil. Ao passarmos por cada espaço, Desali me explica como os mesmos funcionam. O lugar em que conversávamos era o espaço que fica por conta da pintura, uma antessala é onde o artista monta suas telas e outras obras. Dentro da casa, ele tem seu espaço para leitura e onde produz o seus quadrinhos. Estamos em frente ao seu tocador de discos e lhe questiono sobre seu hábito de ouvir música a medida que ele me mostra a sua coleção.

Atelier Desali

Ateliê de Desali. O primeiro é destinado a pintura, o segundo a montagem de telas e o terceiro a produção de quadrinhos.

 

Você está sempre ouvindo múscia enquanto trabalha?

Aqui eu ouço a minha música. Eu curto muito vinil, vou dando um rolé nesses brechós, sebos, compro vinil, revistas e livros antigos. Eu acho bom porque ajuda no meu processo. Sempre tô ouvindo música, o dia todo, ainda mais quando estou no ateliê, quando estou desenhando.  Tô ouvindo samba, hoje por exemplo eu ouvi o dia todo, Xangô, Batatinha, Odair Cabeça de Poeta. Ai depende do dia, sacou? Hoje foi Samba, tem dia que eu fico aqui na pauleira, Pearl Jam, Nirvanão, vai variando. Tem dia que é mais Neil Young, tem dia que é mais punk, tem dia que eu fico mais no Tom Waits, tem dia que eu vou para uma onda mais eletrônica, tem dia que eu fico ouvindo só nacional, Zack, Slack, Kafka, Inês Gonçalves, Carlos Cachaça, Mart’Nália, Chico, Jorge Ben. Esse aqui eu ouvi hoje, Carolina do Jesus, ela foi uma poeta e rola esse vinil com as composições. Eu gosto bastante de música brasileira. Sexo Explícito, Maria Angelica. Esse Lobão tem que tirar, está vacilando nas ideias! Comprei mais pela capa, mas ele perdeu o conceito. Tem dia que eu estou mais nervoso, tem dia que eu estou mais tranquilo. Depende demais do meu humor.

Vinis Desali

Coleção de discos de vinil de Desali.

 

Desali coloca um disco de Daminhão para tocar e nos dirigimos a sua estante de livros. No topo dessa mesma estante está a sua coleção de câmeras analógicas. Pergunto:

 

Essas aqui são as câmera que você usa? Todas funcionam?

Não, essa aqui até estragou recente, mas todas funcionam. Essa aqui eu eu vou mexer nela ainda. Tem uns livrinhos aqui também, que é bom né? Eu costumo ler uns livros aí, eu me viro. Eu gosto muito de quadrinho. Leio bastante. De vez em quando eu leio uns classicão tipo Kafka, Hanna Arenth. Gosto dos poetas portugueses Herberto Hélder. Esse aqui da Silva Plati eu gosto bastante também. Eu lido muito com a palavra, o tempo todo no meu trabalho. Desde o quadrinho às pinturas e objetos.

Cameras Desali

Câmeras e estante de livros de Desali

 

Nos viramos então para o seu canto destinado a produção de quadrinhos. Com uma mesa e uma cadeira de escola, encontradas em uma caçamba de lixo, posicionadas frente a uma parede coberta por suas produções.

 

Aqui eu estou montando umas páginas novas do ArtZé (um zine editado pelo artista). Aí tá entrando mais na Maria Piroca, fazendo os dois sempre juntos. Tem uns momentos que é mais quadrinho tem uns momentos que é mais texto. Aí vai variando. Essas páginas, eu vou colocar junto com o ArtZé que eu já tinha. Esses são os croquis, aqui eu fiz a carta dos leitores, vai entrar na primeira página. Vou montando esse livro aos poucos. Antes era só ele e agora vai entrar a Maria como uma feminista do Femen, militante, e o Zé é mais ostentação. Sempre que rola um evento eu resgato as edições antigas e faço umas atualizações. Ai eu vendo por um preço acessível. Vendi a R$ 3,00 um tempão mas agora tô vendendo à R$5,00.

 

No momento de compor um trabalho, quais são suas fontes de inspiração e referência?

Eu absorvo essas coisas que vão me complementando. A poesia, literatura, música, história em quadrinho. Eu vou me alimentando dessas influências que são a base do meu trabalho. E tem também as figuras marginalizadas, que são pessoas que eu vou achando e que não tiveram ascensão e que dialogam muito com o meu trabalho.

Desali Atelier

Desali me mostra no disco de cores os tons que geralmente utiliza em seus trabalhos. São os mais fechados, localizados ao centro. Logo acima, vejo vários papéis de lembretes fixados com pregos na parede. Um deles diz: “meta do meses: menos drogas no decorrer da semana mais trabalho”. O artista me diz com um sorriso que lhe atravessa o rosto: “Consegui fazer isso aê, pode fotografar”. Lhe devolvo um outro sorriso e faço a foto. Retornamos, então, ao espaço destinado as pinturas, onde iniciamos a nossa conversa.

 

Me fale um pouco dos trabalhos que você está realizando agora.

Eu estou sempre desembolando vários trampos ao mesmo tempo. Estou trabalhando nessa série aqui em que lido muito com a sujeira, com o resíduo da tinta seca. Eu vou pisando nela e ela vai ganhando outras formas. Aí eu vou colocando nessa massa. Assim, eu já vou criando do chão, arrancando as camadas. Eu passo no plástico, e vou recortando a tinta e depois faço uma colagem. Eu jogo no chão e vou colocando na tela. Eu vou fazendo uma raspagem com a mão. Vou pegando esses recortes e vou trabalhando. Mais raspagem e desenho. Eu sempre experimento, o tempo todo. Ai eu faço isso um tempo e depois vou para um trabalho mais alterno.

Essa aqui é uma série nova, que é mais matéria mesmo, mais tridimensional, com formas geométricas em que eu brinco com a palavra de acordo com o movimento da pessoa. Ele lida um pouco com geometria de um lado mais verticalizado, e o outro com as linhas diagonais que lembram mais morro. Um lado é uma tonalidade e o outro é outra. É meio essa onda do Desali mesmo, sô. Que vem de desalinhado, eu faço desde um trabalho mais formal até um mais escatológico, mais doente mesmo. Tem uns que são mais poéticos.

Desali me mostra também uma série de pinos em que realiza intervenções adicionando rótulos aos mesmos. Posteriormente, esse material é inserido nos objetos criados pelo artista, como na obra “materno”.

Materno | Desali

Pinos e Materno | 2014

 

Você é desapegado com o seu trabalho?

Sou muito desapegado. Quando eu vejo que a pessoa gosta ai eu dou. Dou, vendo, troco. Vendo barato quando é para vender barato, vendo caro quando é para vender caro. O que tá rolando é um esquema de uma galera que tá comprando meus trampos baratos e revendendo caro. Aí é paia.

 

Desali pega uma pequena ponta de cigarro de palha e tenta acendê-la sem sucesso. Eu o ofereço um Porto Faria:

 

Eu tenho cigarro aqui, você quer?

Oh! Você fuma, demoro, aceito sim. Você bebe? Tem umas cervejas ali.

 

Uai, aceito!

Desali pega duas cervejas e retomamos nossa conversa:

 

Você é um artista que teve uma relação muito forte com a rua, mas hoje desenvolve boa parte dos seus trampos no ateliê. Para você, como se dá o diálogo entre esses dois espaços?

Hoje em dia, eu produzo nos dois, mas, antes, quando eu passava mais tempo na rua, era muito louco. A rua é mais intenso, a gente fazia uma série de encontros todas as semanas e eu estava na faculdade e fazia grande parte das coisas por lá. Formei tem uns quatro anos, ai esse ateliê foi ganhando forma aos poucos. Desde o apartamento até um espaço só para produzir mesmo. Sempre foi uma coisa meio temporal. Na rua, eu continuo mantendo um fluxo, mas não tão intenso. Eu continuo pixando, de vez em quando eu colo alguma coisa. Mas a intensidade perdeu essa constância. Antigamente eu gostava muito da vida noturna na rua, do ponto de vista da produção.

 

Tem alguma história ou situação que já tenha acontecido aqui no ateliê? O que esse lugar tem para contar?

Não posso falar essas tretas não! Haha! Mas é que a gente junta uma galera aqui, vamos em uns rolés no centro e depois a gente encontra aqui, ouve uma música e ficamos até umas 10hrs da manhã. A galera cola, que mora longe, ai a gente dá um rolé a noite. Eles veem, dormem, ficam uns dias. Um amigo ficou aqui enquanto eu estava em Contagem, trouxe uma galera. Sou meio desapegado, só manter um cuidado com os objetos que eu guardo aqui e é tranquilasso. A gente quer até montar um estúdio aqui, começamos colocando essas caixas de som mas faltou grana para terminar. A ideia é juntar a galera aqui e produzir um som, dar umas piradas.

 

Onde podemos ver o seu trabalho hoje em dia?

Eu tenho trabalho no Orlando, umas fotografias e séries que imprimi e ampliei que expus em outros lugares. Tem pintura lá também. No quartoamado também eu coloco algumas pinturas e colagens. No próprio Piolho, onde sempre vendo umas paradas mais baratas. Eu sempre coloquei nesses lugares tudo, Quina, Desvio, naquele saldão de arte do ateliê dos meninos que eu já não lembro o nome mais.

 

Qual ateliê você considera imperdível de se conhecer aqui em BH?

O do Manolo é do caralho! Ele até está com uma exposição lá no Mama. Tem o da Renata Laguarde também que vale a pena.

 

Bom, acho que é isso! Obrigado por me receber Desali, foi uma experiência incrível conhecer esse seu espaço. 

Valeu por ter vindo, a gente tromba por aí!

 

Saio dessa visita imersiva com a impressão de compreender um pouco mais desse artista inusitado que é o Desali. Conhecer o seu espaço e trocar essa ideia com ele me permite enxergá-lo de um modo diferenciado. Um indivíduo com uma vibração energética muito boa e intensa. Ao mesmo tempo que demonstra uma forte experiência de vida, apresenta também a ingenuidade de uma criança que está sempre explorando, experimentando e descobrindo os seus limites nas tensões que encontra em sua jornada.