Luís Matuto no Catar

Luis Matuto no Catar

POR MATHEUS COUTO

 

De Belo Horizonte para Doha, no Catar, as gravuras do artista quartoamado Luís Matuto ganham projeção internacional. Aberta esta semana a exposição Um Panorama da Gravura Brasileira – em cartaz até o dia 15 de Outubro na Katara Cultural Village – contando com mais de quarenta obras de 28 artistas gravadores.

A curadoria foi realizada por Oto Reifschneider, um colecionador e pesquisador brasiliense especialista na técnica. Oto selecionou o artista mineiro por apresentar um perfil singular: ser um dos poucos integrantes do que chamou de a “nova geração” do gravurismo – jovens entre 20 e 40 anos que se dedicam a técnica.

Luís Matuto tem 26 anos, nasceu em Alfenas (MG) e é formado em Design Gráfico pela UEMG. Sua relação com a produção de gravuras vêm da infância: “Desde pequeno ajudava meu pai a revelar e imprimir telas de serigrafia para minha avó costureira, gostava daquilo mas não tinha pretensão artística alguma.”

 

Luis Matuto gravando em Itatiaia

 

Foi durante a faculdade que Matuto fez uma imersão no universo dessa técnica: “Em 2010, em uma das matérias de expressão gráfica, tive contato com a xilogravura. Aí complicou. Foi paixão. Comecei a investir em estudar e praticar sozinho, mas não estava satisfeito com os resultados. Então um amigo me apresentou para a Lucia Pimentel e Clébio Maduro, que eram os professores do ateliê de xilogravura e gravura em metal da UFMG”.

Matuto tornou-se frequentador assíduo do ateliê, onde aprendeu e desenvolveu seu trabalho, tornando o gravurismo a sua principal manifestação artística: “Decidi então focar e aprender mais sobre a técnica e pela imersão no universo da gravura, fui abandonado a pintura e outras coisas que eu fazia. Queria saber só de gravura 24h por dia, estudar, praticar e refletir sobre.”

Durante muito tempo, Matuto levou de forma separada as relações com gravura e com o Design Gráfico. Porém, com o amadurecimento, percebeu como esse distanciamento o prejudicava: “A gravura sempre esteve atrelada a comunicação e o que entendemos por Design hoje. São processos de impressão que foram ultrapassados tecnologicamente e apropriados pela arte.  Então comecei a associar símbolos, tipografia, composições, remix de imagens que são elementos do meu dia a dia de designer nas gravuras, isso somado ao desenho carregado que já desenvolvia.”

Sobre o mercado, Matuto afirma: “Tenho consciência das dificuldades da gravura em relação a mercado. Existe um preconceito em taxar ela como de menor importância pelo suporte de papel. Preconceito burro e infundado, ainda mais que os papéis de gravura em metal duram mais que o tecido da tela. É mais status adquirir uma pintura do que uma gravura.”

“O processo da gravura é moroso demais e muito metódico, não se tem resultados imediatos. Isso desanima quem é mais aflito. Pesquiso muito e tenho visto um número cada vez maior de artistas se aproximando da gravura, no Brasil e no mundo. Aberturas de ateliês coletivos e individuais aos montes. É difícil, demorado e o retorno é em conta-gotas. Mas não dá mais para abandonar. Foi como apaixonar-se pela mulher da minha vida. Bateu forte no peito e não tem explicação certa. As etapas de gravação do metal, a corrosão do ácido ou o embate das goivas com a madeira, existe um mistério quase alquímico no gravar.”

Luis Matuto no Catar

Matuto tem várias inspirações em seu processo criativo. “Gosto muito da gravura mexicana e caribenha, para eles a gravura tem uma função social. Um instrumento de critica e difusão. São muito expressivos. Em relação a artistas que admiro posso citar alguns nomes como Hansen Bahia, Irving Herrera, Leonard Baskin, Posada, J. Borges, Claudio Mubarack, Marcin Bialas, Clebio Maduro e Paulo Lisboa. Os que estão vivos de alguma forma já entrei em contato. Clébio Foi meu professor de gravura. É um monstro. O Paulo é outro cara cabuloso. J. Borges tive a felicidade de conhece-lo pessoalmente. Fui em sua casa/oficina em Bezerros, cheguei a adquirir algumas peças.”

Sobre expor em Doha, o artista reconhece que é ótimo ter essa primeira experiência. Mas é temeroso em relação ao glamour que gira entorno de uma exposição internacional: “O local da exposição é maravilhoso, mas são só minhas gravuras lá. É ótimo para meu currículo mas continuo pegando dois ônibus para ir trabalhar do mesmo jeito. Não tenho grandes expectativas pessoais, mas vejo a oportunidade de mostrar a arte brasileira para uma parcela do mundo árabe. O mundo que cerca o jovem artista é cheio de ilusão. Sou muito pé no chão com relação ao meu trabalho artístico, encaro ele como um ofício que ainda vou ter muito caminho de pedra pela frente”.