Visita à Saudade da Cidade e do Jambreiro

Perto de completar 15 anos eu comecei a andar de skate. A entrada do meu prédio era em uma rua íngreme e perigosa, quando chovia era possível ouvir da janela os carros serpenteando pela subida molhada e desenhada em ondulações do asfalto. Estávamos sempre lá fora. Um grupo de três ou quatro amigos que passava boa parte das tardes e noites tentando tirar um ollie ou um varial em cima dos shapes nacionais surrados e sem muita pressão.

Todo skatista é um pouco arquiteto e urbanista. O esporte desenvolve uma percepção bastante curiosa e criteriosa do espaço urbano: as praças, as escadas, os bancos, os passeios, o asfalto: todo obstáculo se transforma em caminhos e possibilidades. A cidade nutre nosso cotidiano de sentidos. E naturalmente caminhamos a desenhar e a redesenhar as ruas e as esquinas, os parques e a pradarias que se estendem por bairros áridos e de pouca vida.

Ao lado do prédio tinha um lote. E ali vivia um morador de rua que se vestia com uma mistura complexa de tecidos e sacos de lixo preto. Fazia esculturas verticais com latas enferrujadas, baldes e arames. Não era visto conversando com ninguém – e normalmente conseguia seus mantimentos em derivas pela cidade. Eu era criança quando perguntei pra ele qual era o seu nome. E ele me disse que isso já não importava mais.

Sempre me coloquei a aprender com o silêncio e o barulho que escuto da cidade. Observo os prédios e leio atento cada uma das pixações. Uma cidade sem arte é uma cidade em silêncio. Me entretenho com os prédios, os ladrilhos, os azulejos, as varandas, as datas, os letreiros luminosos iluminando as árvores a noite. Caminhando, pedalando, remando, no ônibus ou no carro; a cidade pra mim é sempre um espetáculo sem hora marcada.

 

Correndo para as Montanhas

Comecei a correr aos 27 anos. Sem saber o por quê exatamente – e nem para onde – a viagem só ganhou algum real sentido quando atravessei a Serra do Curral de Nova Lima para Belo Horizonte. Estava selado um novo hábito, que vem deixando os meus skates estacionados. E se todo skatista tem um pouco de arquiteto e urbanista, todo corredor de montanha acaba desenvolvendo alguma percepção de geografia e biologia.

Eu já tinha subido até a crista do Curral uma outra vez, lá pelos 18, 19 anos, com alguns amigos aventureiros. Era madrugada e a travessia ainda podia ser feita sem ter que enfrentar nenhum tipo de portaria. Pulamos uma cerca, seguimos por uma trilha sinuosa que levava até uns cabos de aços. Nos penduramos ali até o topo da serra – e assistimos a cidade amanhecer.

Voltar à Serra foi como visitar uma saudade que eu desconhecia. Passei algumas horas lá em cima a observar as ruas, as avenidas e as montanhas. Os aviões descendo no Aeroporto de Confins. O Barreiro, Contagem, Ibirité e as chaminés da metalurgia desenhando o céu com um véu negro descortinado. A Serra da Piedade impune e imponente a assinalar o caminho de Sabará e de Caeté. E lá no fundo a Canastra mergulhando no horizonte azul-acinzentado dos campos rupestres que acobertam a paisagem terrestre.

Foi meu primeiro contato emocional com a Mata do Jambreiro. Observando lá de cima esse filete de Mata Atlântica a tatear Belo Horizonte, Sabará e Nova Lima, um cinturão verde de resistência e resiliência pressionado pelo crescimento desesperado das cidades. Entregue aos rasgões impiedosos da atividade mineraria, nitidamente sofrendo e sangrando por veias abertas de estradas de terra que são cortadas diariamente por caminhões carregados de pedras e ferro.

Mata dos Fugitivos

Tão logo descobri o acesso à Serra do Curral pela Mata do Jambreiro, estes viraram meus territórios habituais de correr e de me afugentar da cidade. Dizem até que tradicionalmente a Mata do Jambeiro é tida como a “Mata dos Fugitivos”, tendo em vista que muitos ex-detentos e criminosos costumavam se esconder por ali depois de praticarem seus delitos nas cidades satélites. E, provavelmente por isso, todas as pessoas com quem divido meus percursos e trajetos me dizem para não voltar mais.

É bizarro. Existem dias que passo duas a três horas correndo pelo Jambeiro sem cruzar com nenhuma alma viva. E quando cruzo, como aconteceu há alguns dias, é com personalidades como uma senhora de oitenta e poucos anos que caminhava vagarosamente com a presença de uns doze cachorros. O Jambeiro é árido, largado e abandonado. Parece uma terra de fronteira. E é. Sem governo, sem policia e sem lei.

A Mata é usada como atalho para operários que se dividem entre Sabará, Raposos e Nova Lima. Também tem uma circulação considerável de trilheiros de moto. Bicicletas são raras, mas tem aumentado consideravelmente nos últimos meses. As trilhas são bastante técnicas e desafiadoras. Quase todas as subidas são marcadas por pedras grossas e cascalhos, além das cavidades causadas pelas motos. Está longe de oferecer a mesma beleza e leveza da Serra da Calçada – ou Retiro das Pedras.

A Mina das Águas Claras – ou Vale, ex-MBR -, nos limites do Jambeiro com a Serra do Curral, está desativada. Dia desses encontrei um grupo de funcionários pavimentando um “mirante” que dá vista para a cava da mineradora – e eles me relataram que o terreno está sendo entregue para virar condomínio. O atrativo do mirante é curiosamente a lagoa formada por décadas de exploração das costas da Serra do Curral – tão profundo que teria atingido o lençol freático. Misturada aos metais, a água azul se desvela em um cartão postal duvidoso.

 

 

Diante da lagoa está o Pico Belo Horizonte. Com 1390m, o pico pode ser acessado por dentro do território da Mineradora – ou então pulando uma cerca do Parque das Mangabeiras. Apesar de todos os caminhos para o pico serem cercados ou controlados (inclusive os que vem do Taquaril e Mata da Baleia), diariamente o Pico é visitado por grupos aleatórios de pessoas. Vídeos na internet mostram encontros de jipes e motoqueiros. Um verdadeiro castão-postal, porém restrito a visitação de aventureiros.

 

 

Natureza Interrompida

Algumas porções do Jambeiro estão inacessíveis. Uma das minhas primeiras tentativas de travessia, depois da Serra do Curral, foi tentar acessar o condomínio Ville de Montaigne, por cima da Serra do Souza, a partir do bairro Jardim da Torre, nas imediações do bairro Belvedere. Nos primeiros quilômetros de uma antiga trilha, existe agora uma portaria com grades e câmeras de segurança. A portaria protege uma grande obra em curso. Caminhões e tratores desenham curvas de nível na montanha, enquanto abrem acesso para futuras ruas. E prédios.

 

 

O bairro Bellagio nasce interceptando um corredor ecológico que ligava a fauna e flora da Bacia do Rio Paraopeba com a bacia do Rio das Velhas. Analisando um mapa é fácil identificar a ligação que existe entre a Serra da Moeda e do Rola Moça (onde corre o Rio Paraopeba), descendo então para o Vale do Mutuca, passando por dentro dos condomínios Estância Serrana, Vila Alpina e Vila Del Rey, encontrando enfim a Mata do Jambeiro na altura do Vale dos Cristais (onde encontraria o Rio das Velhas, nas imediações de Sabará). O Bellagio está incrustado em uma das vertentes da Serra do Souza e bloqueia a passagem do Vale dos Cristais. Nos últimos anos foram inúmeras as tentativas de embargar a obra, mas ainda sem sucesso.

Processo semelhante passou o Vale do Sereno e o próprio Vale dos Cristais, que tiveram ocupações tão aceleradas que a estação local de tratamento de água não consegue amortecer o volume de efluentes que corre pelo Ribeirão dos Cristais. Em consequência, existe um odor onipresente nas imediações dos condomínios, que costuma se tornar ainda mais forte em dias quentes. Os moradores cobram sistematicamente resoluções por parte da Copasa e da Prefeitura de Nova Lima, naturalmente. Contudo, muitos não percebem que financiaram o próprio problema. (O que me faz lembrar o irônico e divertido filme O Cheiro do Ralo).

 

 

Esta porção inteira do Jambeiro está condenada. Mesmo iniciativas que poderiam ter algum desdobramento positivo não vingam. Em 2014 foi inaugurada a Reserva Particular do Patrimônio Natural do Vale dos Cristais – com uma trilha que ligava o Cristais até a estrada de acesso ao condomínio de Jardim de Petrópolis e a Macacos. Menos de dois anos depois, em abril de 2016, fui fazer o trajeto e colecionei teias de aranhas por valas imensas de motos que também não circulam mais. A trilha, como todo o restante do Jambreiro, é de arrepiar. Solitária, completamente abandonada, e usada apenas por quem quer tentar a sorte. Ou sei lá o quê.

 

 

Visita à Saudade

Corro pelo Jambreiro sempre a me perguntar por quanto tempo esta Mata ainda vai durar. As investidas e as invasões da cidade não são de hoje, é claro. O processo civilizatório e predador da região vem sendo desenhado há pelo menos dois séculos, quando veio se instalar aqui a Fazenda do Rabello, já redefinindo a ocupação e o uso do território. O terreno veio se desmantelando em bairros, condomínios e ruas que desafiam o relevo um tanto impróprio à geografia de uma cidade ideal. As montanhas do Vila da Serra, do Sereno e de todos os condomínios ao redor criam desafios particulares. Não existem praças ou áreas de convívio. Mas sim uma teia árida de avenidas e sistemas viários que ligam as casas aos trabalhos.

 

 

Destrói-se a natureza para se construir horários. Foi importado da ‘América’ um modelo de urbanização que definia que a vida era melhor nos subúrbios: trabalharíamos até certa hora nos nossos prédios e escritórios – e então às seis da tarde nos enfiaríamos em nossos carros com destino ao cheiro das damas-da-noite dos nossos quintais. Contudo, se considerarmos as duas horas de trânsito para ir – e as duas horas de trânsito para voltar – a matemática da vida saudável não consegue equilibrar. Essa promessa de viver bem, vista definitiva e natureza é enganosa.

O lote do meu prédio antigo virou um shopping. Não faço ideia de onde o morador sem nome foi parar. Mas regularmente encontro no Jambreiro um senhor que foi engolido pela cor do minério: roupas, mãos, braços e cabelos, ele é uma escultura marrom viva e ambulante. Dorme no Trilho do Trem que divide Belo Horizonte de Nova Lima – ou imediações. Penso que eles são a mesma pessoa – e representam a mesma história. Uma tentativa de conquistarem espaço, conforto e abrigo diante de uma cidade impiedosa e indolente.

Considero toda mata e todo jardim uma forma de resistência. Correr hoje pra mim significa encontrar com a revolução. Significa orar. Significa ter algumas horas de silêncio onde eu possa me conectar com o restante de realidade que me cerca. O Jambeiro é uma resistência. Como também é o Rola Moça, a Calçada, a Gandarela, o Rio Doce, o Velhas e toda uma porção de vida que suspira e respira por instrumentos. Estou longe de ter os melhores hábitos para com o planeta, mas hoje correndo, eu penso. Que não existe nada mais fundamental na existência do que a nossa relação com o meio. A cidade e os quintais. Os rios, as montanhas e as nascentes.